Eu sei que é muita presunção deste humilde editor tentar selecionar, entre uma infinidade de filmes, apenas dez para serem colocados no ápice das comédias. Mas a intenção é envocar o debate, seja de quem é a favor desta lista, seja de quem é contra.

Inicialmente, foi pensado em utilizar apenas o fator riso como parâmetro, mas comédias escrachadas iriam sempre ganhar, e não é toda comédia que tem que te fazer gargalhar por duas horas. A verdade é que uma boa comédia começa com um bom diretor e roteirista, sendo os atores meros objetos manipuláveis que ganham vida sob a batuta de seu maestro. Claro que essa regra tem exceções.

Comédias românticas, sátiras de filmes, comédias colegiais e até mesmo uma sessão especial para as comédias clássicas do cinema preto e branco, assim foi mais interessante de selecionar as minhas dez, sem querer impor que elas são as melhores.

Desta forma, vamos começar por quem fez história, pelas duas melhores comédias em preto e branco, a primeira, de 1940:

Tempos Modernos (1940)

Charles Chaplin era um gênio que jamais teve qualquer outro a quem se comparar. Tanto como ator quanto como diretor e roteirista, Chaplin foi o homem que criou e desenvolveu o cinema e a nova maneira de se contar uma história sem o uso de palavras. Ao final dos anos 30, o cinema mudo estava dando espaço para os primeiros filmes falados e Tempos Modernos parece ser o verdadeiro marco de transição entre estes dois cinemas.

Uma crítica social ao industrialismo, que transformou homens em máquinas, Tempos Modernos é, acima de tudo, um filme em que o som é apenas transmitido através de máquinas, seja pelos auto falantes das fábricas, seja pelo ruído estrondoso das mesmas. Certas cenas são épicas demais para se esquecer, mas a que eu vou postar abaixo já fala por si só.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=VJesKy0LiOc[/youtube]

Chaplin é o ícone da comédia e sabia usar disso para fazer tanto a crítica social quanto o humor escrachado. É um raro exemplo de ator, diretor e roteirista que deu certo neste âmbito do cinema de humor. E claro, foi o precursor do que muitos iriam copiar nos anos que se seguiram.

“Se Meu Apartamento Falasse.” (1960)

Em 1960, Billy Wilder já era bem conhecido como um dos melhores diretores daquele período e, até hoje, como um ótimo criador de interação entre personagens e seus diálogos. São deles comédias clássicas como “O Pecado Mora ao Lado” e “Quanto Mais Quente Melhor” com Marylin Monroe (que merecia ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme).

Mas o filme em questão talvez seja um dos melhores exercícios de diálogos rápidos e divertidos que o cinema poderia ter criado, com um dos parceiros de Marylin em “Quanto Mais Quente Melhor”, o fantástico Jack Lemon, interpretando um contador que acaba tendo seu apartamento usado por seus chefes como quarto de motel para que eles saissem com suas amantes. Essas comédias levemente apimentadas falando sobre sexo e sexualidade eram conhecidas nos EUA como “sex farse” e normalmente não caiam bem aos olhos dos membros mais conservadores da Academia.

As interpretações de Jack Lemon e Shirley MacLaine são o que faz o filme ser tão bom. A beleza da atriz só faz o filme ser ainda mais belo de se assistir. A história em si chega a ter um certo drama devido ao fato de que ambos se apaixonam, mas não podem demonstrar isso devido a ela estar saindo com seu chefe e ele não querer perder o emprego. Porém, como toda comédia daquela época, tudo se resolve – por bem ou por mal – e o que resta ao espectador é a sensação boa de que assistiu ao capítulo de uma vida, mais uma na grande cidade de Nova Iorque, tão retratada em filmes, livros e quadrinhos.

Abaixo, um dos inúmeros exemplos do diálogo rápido e dinâmico que só Jack Lemon conseguiria apresentar sem parecer falso:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=FhJVTDkixDQ[/youtube]

Voltando ao assunto Oscar, este filme ganhou a estatueta de Melhor Filme no Oscar e mais quatro estatuetas por roteiro, direção, direção de arte e edição. Mais do que merecido.

Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu! (1980)

Os irmãos Zucker e Jim Abrahams foram criadores desta maravilha das comédias satíricas. Durante os anos 70, o que se viu foi o aumento exponencial dos famosos filmes catástrofe como “Inferno na Torre” e a série “Aeroporto”. Com a chegada dos anos 80, o trio de diretores pegou dois roteiros não utilizados e escreveram esta fantástica sátira dos filmes catástrofe.

A começar, eles usaram um elenco de peso como Leslie Nielsen, Peter Graves (que havia feito os filmes da série Aeroporto), Lloyd Bridges (patriarca da família Bridges) Robert Hays, Robert Stack e Julie Hagerty para os papéis principais, e como coadjuvante simplesmente Kareem Abdul-Jabbar, jogador de basquete dos Los Angeles Lakers que nunca havia atuado em toda sua vida e que protagoniza uma das melhores cenas do filme.

Desde o princípio, o que se vê são piadas jogadas às alturas. A história, não que isso seja importante, mostra os percalços que acontecem em um voo quando todos os pilotos adoecem e sobra para um veterano de guerra cheio de traumas pilotar e salvar a vida de todos a bordo. Só que a parte séria termina aí. A maioria das piadas é sátira do filme Zero Hour (1957), inclusive usando a história dos personagens e falas do mesmo filme na comédia. As cenas são iguais, mas sempre com uma piada colocada entre elas. Vale a pena assistir para comparar como drama absoluto se torna comédia,

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=-BjU-e01zQ4[/youtube]

Leslie Nielsen, que anos depois seria o protagonista de outras comédias com a mesma temática satírica ao lado tanto dos mesmos diretores quanto de Mel Brooks, interpreta um médico que, nos momentos finais da aterrissagem aparece reiteradamente na cabine desejando boa sorte, mesmo depois que o avião já havia pousado.

Um tempo depois uma continuação foi feita, mas aquela piada inicial já não tinha tanta graça, o que acabou fazendo com que este fosse esquecido como apenas mais uma comédia sem relevância. Os diretores depois foram os criadores de outros filmes tão fantásticos como “Top Secret!”, “Corra que a Polícia Vem aí”, “Top Gang” e os últimos dois “Todo Mundo em Pânico”.

Porky’s (1982)


“Meu Deus, o menino é deformado!”

No começo dos anos 80, as comédias juvenis mostravam um grupo de jovens que tinham entre seus ideia sair com o máximo de mulheres sem muito compromisso e zoando o tudo o que pudesse. Desta mesma safra temos filmes como “A Vingança dos Nerds”, “Clube dos Pilantras”, “Clube dos Cafagestes”, “Almôndegas” entre tantas outras. Sendo que os dois clubes não tratam de universitários, mas tem o mesmo princípio.

Inicialmente, estes filmes, que tem um teor sexual e linguagem muito mais explícita que seus predecessores, chegaram a ser censurados em diversos países. Mas os anos 80 haviam chegado, e com eles a liberdade de expressão e sexual, tanto que neste período se descobriu que estes excessos ajudaram a espalhar o vírus da AIDS na população, mas os filmes eram um sinal dos tempos e não foram os inspiradores desta liberdade.

Bob Clark, dirigiu e escreveu o filme com base em quinze anos de experiências de amigos e colegas nas escolas e faculdades. A história mostra um grupo de amigos aproveitando a vida e, no caso de Pee Wee, a busca pelo fim da virgindade. A escola mostrava aquele mesmo tipo de elenco secundário, vivendo suas próprias aventuras, inclusive este sendo um dos primeiros filmes de Kim Cattrall (de Sex and the City), interpretando uma professora de ginástica feminina que tinha a péssima mania de uivar quando transava.

Porém, uma das melhores cenas do filme está abaixo, quando Ballbricker, a outra professora das meninas, quer identificar o aluno que estava espionando as meninas no chuveiro. Vale a pena ver a explicação dos métodos de identificação e a reação dos outros atores.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=9SvX4X08ZHE[/youtube]

Este filme com certeza  deu origem a série “American Pie” e tantas outras que vieram nos anos 90 e adiante, com universitários, sexo e mulheres nuas. Daqui uns dez anos teremos mais uma série deste tipo e, lá na frente, se lembrarão de “American Pie” e esquecerão totalmente de “Porky’s”.

“Curtindo a Vida Adoidado” (1986)

John Hughes pode ser considerado o diretor e roteirista que melhor expressou os anos 80 em seus filmes e “Curtindo a Vida Adoiado” é o melhor exemplo de seu trabalho. Hughes disse que seus filmes sempre seriam uma medida de mostrar aspectos de sua vida e de como as pessoas tendem a sofrer para se encaixar. Grande parte de seus personagens se destacavam negativamente perante a sociedade convencional, e Hughes estava ali para contar suas histórias.

Desde a dupla de geeks de “Mulher Nota 1000” aos alunos em detenção de “Clube dos Cinco”, vimos nos filmes de Hughes uma vontade de contar a história ou uma passagem da vida de um destes personagens tão fantásticos. E aqui, começamos a saga de Ferris Bueller.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=ttnhbdwB6mU[/youtube]

A narrativa do filme já começa fantástica, com Bueller se virando para a câmera constantemente para explicar seus pensamentos e intenções, sempre falando de alguns fatores interessantes ao espectador ou narrando eventos que não iremos ver no filme, mas são pertinentes ao mesmo.

Bueller tem apenas uma intenção: aproveitar o dia com sua namorada e melhor amigo antes que chegue o momento da escolha entre ir para a faculdade e deixar tudo para trás, mostrando que mesmo ele, descolado e famoso em todos os lugares, tem suas aflições de adolescente. Na verdade, o que vemos é uma revolta contra as responsabilidades que eventualmente todos terão de aceitar em suas vidas.

Parece ser pouco engraçado, mas enquanto vemos isso como história em seu lado mais profundo, em verdade, na superfície, a comédia é que prevalece e este lado da vida de Ferris só é visto por aqueles que sabem se sensibilizar pela história. As piadas em sua grande maioria são simples e perfeitamente encaixadas, usando a esperteza da juventude para passar a perna nos mais velhos, seja o diretor da escola, no maitrê de um restaurante chique e, finalmente, em seus próprios pais, que pensam que ele ficou em casa doente enquanto saiu pelas ruas da cidade para aprontar.

Talvez este seja um dos melhores filmes dos anos 80, e com certeza figura na lista de melhores comédias de todos os tempos pelo significado histórico que teve para a geração que assistia reiteradamente o filme na Sessão da Tarde e um dia sonhou em ser Ferris Bueller.

Na semana que vem, a parte dois com comédias românticas e muito mais.

J.R. Dib