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“Big Jato” é o valor afetivo de Cláudio Assis

Dentro de tanta aspereza e extremos gráficos, de alguma forma sempre deu para extrair poesia da obra do diretor Claudio Assis. Muitos vão dizer que isso provinha da fotografia impressionista de Walter Carvalho, mas o diretor de cults como Febre do Rato sempre foi bem mais interessante e astuto em seu ofício cinematográfico do que em sua pessoa física. Big Jato, seu novo longa, e dessa vez sem Carvalho, é uma espécie de respiro dentro de seu próprio universo. Baseado no livro homônimo de Xico Sá, o filme é uma jornada de descoberta do mundo do jovem Chico através de sua família e das andanças com o pai, na boleia de um caminhão por um Nordeste profundo.

Chico (Rafael Nicácio) é um adolescente que ajuda seu pai Francisco (Matheus Nachtergaele) desentupindo fossas no interior de Pernambuco. Eles vivem em Peixe de Pedra, uma pequena cidade de chapada com uma rádio em que trabalha seu tio Nelson, também interpretado por Nachtergaele, presente em todos os filmes do diretor. Enquanto Francisco espera que Chico se desenvolva na matemática para lhe ajudar nas contas, o garoto escolhe a poesia, se aproximando de seu tio anarquista que satiriza o irmão nas locuções radialistas.

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O viés onírico está sempre por perto (às vezes até demais como na dispensável participação do personagem de Jards Macalé) demonstrando a versatilidade de Claudio em meio aos seus próprios maneirismos ora políticos, ora simplesmente bizarros. Dentro dessa percepção, Big Jato é um filme de comoção.

O diretor ainda não superou o seu melhor filme, o intenso Amarelo Manga, mas esse direcionamento mais, digamos, brando na ótica de refletir seus seres, é muito importante para seu próprio amadurecimento. Como cinema a verdade é que ele trocou o choque, pela singeleza do valor afetivo. E fez um filme bonito. Não é um grande filme. Mas é um trabalho que deixa o diretor diante de sua própria e pouco vista… grandeza.

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