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Bruna Surfistinha promove o encontro entre a sacanagem e a melancolia


Dentro da melancolia psicodélica dos versos da belíssima canção Fake Plastic Trees, do Radiohead residem todos os paradoxos que compõem a vida (real e idealizada) de Bruna Surfistinha. A música, um luxo muito bem vindo ao filme que se propõe a biografar a história de vida da ex-prostituta Raquel Pacheco, que virou celebridade ao criar um blog que descrevia, com muitos detalhes, as performances de seus clientes, poetiza sobre o artificialismo que desola, sobre sentimentos que vagam dentro de concepções; e que nos leva diretamente para a ilusão, regada a muito sexo, que permeou boa parte da vida “fácil” da personagem.

Claro que, livremente adaptado do best-seller O Doce Veneno do Escorpião, que virou hit literário há uns cinco anos narrando a transformação da desengonçada Raquel, na prostituta mais requisitada de São Paulo, o longa de estreia de Marcus Baldini, que veio da publicidade e com trabalhos pontuais na MTV, segue o tradicionalismo narrativo das biografias, numa estrutura até conservadora (cenas da família sempre ao redor de uma mesa de refeições; prostitutas despidas de sutilezas…) e, sob vários aspectos, esquemáticas.

O roteiro vai direto ao ponto do extremo que a vida de Raquel se tornou e, se a primeira vista isso denote algum artificialismo, na verdade se concentra na ideia de que Raquel se valia de sua fuga para encontrar algum sentido em sua vida. E nesse contexto o filme é correto. Se no livro, vemos o tempo inteiro que a Raquel dialogava com a Bruna, no filme, o roteiro procura tornar essas “duas mulheres” muito mais elementares do que propriamente complementares. Em suma, quem vai esperando um filme reverente aos fatos do livro se surpreende pois muitas respostas que o mesmo dá, o filme ignora.

Deborah Secco brilha encarnando sua protagonista conseguindo, com certa hesitação pontuais, distinguir a sensualidade banal da situação com uma interpretação sólida. Mas é Drica Moraes quem consegue arrepiar com a forma inexorável com que segura a naturalidade de sua cafetina. Cássio Gabus Mendes e Fabiula Nascimento também são destaques.

Confesso que fui assistir ao filme esperando ser uma bomba e paguei minha língua. Dentro do que se propõe ele é, digamos, digno. E graficamente corajoso nas cenas de sexo, num contexto de cinema brasileiro atual. Mas é quando entra a música do Radiohead que entendemos que o diretor queria com o filme: mostrar como um indivíduo se perde em suas próprias fugas/ilusões e sem julgamentos morais. Aí você decide se o final é feliz ou não… Se é que isso importa.

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