em

Chuva


Chuva,
da diretora e roteirista Paula Hernández, foi lançado originalmente em 2008 e faz parte de uma safra de filmes argentinos que plantou a frase “os filmes deles são melhoers que os nossos” na boca dos cinéfilos brasileiros, o que culminou com o laureado O Segredo de Seus Olhos. Digo isso independente de minha opinião quanto à frase e aos filmes argentinos, apenas para que o leitor possa entender por que um filme lançado 3 anos atrás só está chegando agora ao Brasil com boa expectativa de público – fora eventuais problemas de distribuição.

O enredo é dos mais simples. Buenos Aires está debaixo de chuva há 3 dias e Alma (Valeria Bertuccelli) está presa num tráfego sufocante, que pouco se move. De repente, algumas pessoas aparecem correndo da polícia no meio da rua e uma delas, Roberto (Ernesto Alterio), entra em seu carro, pedindo calma, pois ele só precisa de alguns minutos para retomar o fôlego e não se envolver em problemas com a lei. Alma, confusa, não sabe bem o que fazer, mas acolhe o homem e o deixa permanecer o tempo que for necessário. Quando o tráfego se dispersa, ela lhe oferece carona para seu hotel. Roberto é um cidadão espanhol que esteve 30 anos longe da Argentina e veio resolver problemas familiares, Alma está separada do marido e vive há alguns dias em seu velho Renault. Desse encontro, um relacionamento de estranha amizade começa a florescer, sem que pareça forçado demais.


Ambos os personages estão em momentos de transição e um certo desespero contido. O equilíbrio de qual dos dois parece mais difuncional vai pendendo de um lado para o outro, o que explica algumas de suas ações. Nenhum dos dois sabe exatamente o que fazer ou para onde ir, ficam andando em círculos pela cidade e pelos seus sentimentos. Chuva é um filme para aqueles que entendem muito bem o que é se sentir sozinho em meio a uma multidão e que precisam se agarrar ao primeiro fio de empatia que lhes aparece.

A relação do espectador com os personagens – e a história – depende do quão verossímel ele vai achar este primeiro encontro e os próximos, que deixarão os protagonistas mais íntimos. O roteiro, no entanto, é formuláico, seguindo uma cartilha de filmes independentes com poucos personagens e locações, onde muita conversa é jogada fora e o que mais vale é o subtexto do que se diz e das ações apresentadas na tela.


A fórmula realmente aparece – e quando se percebe isso, um pouco da magia do cinema é atirada pela janela – quando percebemos que não há muita história para contar e todas as informações importantes – e aguardadas – são dosadas para cada um dos personagens quando o público já sabe da maioria delas. No fim, os maiores por quês tem respostas não muito satisfatórias e você acaba tendo que se contentar com o que vê, ao invés de se surpreender.

Chuva é um filme maduro por seu delicado drama de silêncios, subtexto e sentimentos estampados nos rostos. Funciona melhor nestes momentos do que quando tenta contar a sua história pelas falas – e narrações – de seus eficientes protagonistas. A produção é realmente de alto nível, um olhar diferente do habitual em torno da cidade – os filmes portenhos geralmente sabem mostrar a melancolia melhor do que os nossos, isso posso dizer – mas com um roteiro sem o polimento necessário para se tornar realmente satisfatório.

 

[xrr rating=2.5/5]

2 opinaram!

Deixe sua opinião!

Participe com sua opinião!

Navegante

Publicado por Henrique Amud

Ficção de Polpa: Crime!

Fortuna Crítica: Almas Públicas, de Marcello Quintanilha