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Cinemateca: 'A Viagem' de duas amigas que reconfiguram o passado através da imaginação

Não há liberdade numa amizade masculina onde o espaço seja libertário a ponto de apagar as fronteiras do real com o imaginário. Homens gostam de coadquirirem espaços de vanglorias pessoais numa cotação de estórias prolificas e auto-propagadoras. Quando assisti ao filme “A Viagem”, do francês Michel Deville, pensei na ausência de marco-existencial quando duas amigas de infância resolvem sair de Paris para ir para o interior, uma delas; Lúcia, (Geraldine Chaplin), está em crise no casamento. Então saem pelas estradas, e no meio da viagem, elas vagueiam por um caminho inverso a uma expedição, não há objetivos na viagem, elas priorizam a conversa à ação, e deste dialogo o filme vai abrindo lacunas fantásticas à imaginação, parando em casas em que Elena (Dominique Sanda) conta que a avô morou, mas até que ponto?
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Estas recordações não seriam projeções de devires possíveis que ficaram como sementes, vindouras, que poderiam ter brotado caso houvesse o desejo momentâneo. O filme belamente fotografado acompanha os passeios das duas por cafés, feiras, e a cada momento, o desejo feminino é fertilizado em homens que aparecem no caminho delas, mas para eles, não será fácil, (com)figura-los; as ficções das duas embaralham suas próprias memórias, compondo para quem está no flerte uma confusão de conduzir seduções, como se posicionar quando a linha entre o real e a imaginação é apagada entre duas orações, como um (m)acho pode subir à uma certeza da conquista? É nessa epopeia que as duas mulheres amadurecem, pois a não certeza de uma volta à casa; para as duas o passado será tão vaporoso a ponto de ser recriado com a viagem.
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Publicação Fernando Andrade