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Clint Eastwood se perde em suas prerrogativas em “J. Edgar”

 

O cinema de Clint Eastwood é reconhecidamente paradoxal. Se por um lado investe sempre na crueza da investigação humana de seus filmes, por outro, possui uma sensibilidade arraigada em suas próprias prerrogativas e na contenção de sentimentalismos.

Essa dualidade é a grande responsável por êxitos sucessivos na filmografia do cineasta: a lucidez épica de Os Imperdoáveis, a força do implícito no tocante As Pontes de Madison, o detalhamento histórico de Cartas de Iwo Jima, a força comedida de Sobre Meninos e Lobos, são só alguns exemplos. Esses extremos equilibram bem discursos e retratos orquestrados por Clint, assim como agregam certa pertinência na investigação social americana, pano de fundo recorrente em seus filmes.

J. Edgar parece caminhar nesse matiz, porém degringola no cruzamento dessas forças, uma vez que seu resultado é muito aquém do que se costuma assistir de Clint Eastwood. E o pior, torna o que seria um interessante traçado sobre o complexo indivíduo que fora o primeiro diretor do FBI e se manteve neste cargo durante inacreditáveis 48 anos, dos quais passou a maior parte do tempo envolvido em escândalos e em grandes feitos. Foi responsável pela reestruturação da agência policial e por transformá-la na maior e mais influente do mundo. Entre outras atividades, foi um dos maiores caçadores de comunistas e espiões na época da Segunda Guerra Mundial, combateu os famosos gângsteres John Dillinger e Baby Face, e participou na solução do famoso caso do rapto do filho de Charles Lindberg. Pessoalmente, mantinha um caso homossexual com seu companheiro de trabalho Clyde Tolson e sempre procurou a aprovação de sua mãe antes de tomar qualquer decisão importante.

Ao focar na misteriosa vida pessoal de Edgar, Clint perde o foco sobre a dimensão que seu personagem poderia chegar como homem público, e os conflitos caem na previsibilidade e nos maneirismos de cinebiografia. Mesmo que o roteiro não o glamourize, o filme acaba se perdendo nas prioridades dramatúrgicas que alinhavam sua trama, resultando num filme chato e caindo no lugar comum onde poderia levantar ricas análises sobre o âmbito de incoerência que o retratado se esgueirava para ser o que era.

O elenco se esforça bastante (Leonardo DiCaprio merecia uma indicação ao Oscar, com certeza!), mesmo com uma inexplicável maquiagem mal feita e mal executada. Mas mistério mesmo é descobrir como Clint e o roteirista Dustin Lance Black (do maravilhoso Milk) conseguiram fazer um filme tão asséptico e burocrático. Que o diretor recupere a linha de raciocínio de seu paradoxo costumeiro.

[xrr rating=2/5]

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