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Crítica: "Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1" interessa mais pela reflexão do que pela ação

A nova (e bem sucedida financeiramente) regra em Hollywood de cortar pela metade a última parte da adaptação de uma série de livros para o cinema tem até seus efeitos benéficos, como mais tempo para desenvolver a história ou não deixar de fora detalhes ou personagens que os fãs curtem e sentem falta quando as centenas de páginas são “espremidas” em pouco mais de duas horas. Mas, na maioria dos casos, o resultado final não é totalmente satisfatório pois o ritmo da primeira parte costuma ser mais lento, onde o roteiro parece dar voltas para justificar a (longa) metragem, para que as coisas fiquem mais empolgantes na segunda.
Quando a produção é bem conduzida, ela pode ser, no mínimo, interessante, como em “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1”. Porém, quando ocorre o contrário, temos catástrofes cinematográficas, onde “A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1” ainda é o principal exemplo. Felizmente, “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1” (“The Hunger Games: Mockingjay – Part 1”) pertence ao primeiro grupo, onde além de entreter (não tanto quanto os filmes anteriores, é verdade), também leva a refletir, sobre as questões da guerra e as manipulações que podem acontecer de todos os lados de um conflito.
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A história começa imediatamente após o fim de “Jogos Vorazes: Em Chamas”, quando Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) destruiu os jogos e partiu para o Distrito 13, junto com Gale (Liam Hemsworth), Finnick (Sam Claflin) e Beetee (Jeffrey Wright).
Ainda traumatizada com tudo o que aconteceu, Katniss é apresentada à Presidente Alma Coin (Julianne Moore) por Plutarch Heavensbee (Phillip Seymour Hoffman). A líder do Distrito 13 quer que a jovem se torne O Tordo, um símbolo para os rebeldes contra o Presidente Snow (Donald Sutherland), através de vídeos de propagandas que têm como objetivo motivar mais pessoas à sua causa. Katniss aceita, desde que seja montada uma equipe para resgatar Peeta Mellark (Josh Hutcherson) e outros participantes do torneio anterior, após descobrir que ele está vivo na Capital e aparece mandando mensagens para que a rebelião tenha fim.
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O que mais chama a atenção em “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1″ é a discussão que o filme levanta sobre os instrumentos utilizados para vencer uma guerra e como eles podem manipular o resultado, tanto para um grupo quanto para outro. O curioso é que uma questão complexa como esta está dentro de uma produção que, superficialmente, foi feita apenas para divertir o grande público. Talvez, por isso, possa até aborrecer alguns espectadores que querem apenas um entretenimento raso e só se interessam pelas cenas de ação (que são poucas, mas muito bem executadas), ou pelo triângulo amoroso formado por Katniss, Peeta e Gale. Mas quem quiser olhar além das aparências, verá que o filme quer gerar um debate bem mais interessante.
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O mérito disso está na boa direção de Francis Lawrence, que também comandou “Jogos Vorazes: Em Chamas”, e no roteiro escrito por Peter Craig e Danny Strong, a partir do livro de Suzanne Collins, que cria situações que funcionam bem na tela. Exemplo das primeiras tentativas frustradas de criar peças publicitárias com uma desconfortável Katniss, obrigada a falar para a câmera uma frase motivacional cheia de clichês, mas que logo depois encontra as palavras certas após um grave ataque do exército do Presidente Snow, numa sequência realmente emocionante.
O filme também faz uma crítica de como nossa sociedade está tão midiática que qualquer gesto, por mais que seja banal, pode ser usado como um instrumento de propaganda. Quem representa bem isso é a personagem Cressida (Natalie Dormer), que aproveita um momento em que Katniss começa a cantar a pedido de um de seus colegas e a música se transforma numa espécie de hino dos rebeldes após a sua divulgação.
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Em “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1” , Jennifer Lawrence prova, mais uma vez, porque é uma das atrizes mais carismáticas e talentosas surgidas nos últimos anos. O papel de Katniss Everdeen parece ter sido escrito pensando nela, já que ela consegue passar bem os sentimentos de sua personagem, especialmente nos momentos em que sofre com as atrocidades cometidas pelo Presidente Snow (muito bem defendido por Donald Sutherland), como na cena em que descobre como ficou o Distrito 12 após um violento ataque. Além disso, ela também se sai bem quando se mostra apreensiva ao ver as imagens de Peeta na Capital e sua preocupação com a irmã Primrose (Willow Shields), numa sequência em que ocorre um bombardeio.
No ótimo elenco, outro destaque é o saudoso Phillip Seymour Hoffman, como o influente Plutarch. Já Julianne Moore, com lentes de contato que deixam seus olhos com uma cor incomum, está apenas correta como a Presidente Coin. Infelizmente, tanto Josh Hutcherson quanto Jena Malone têm pouco tempo de tela, mas seus personagens, certamente, serão mais do que decisivos na segunda parte. Assim como Woody Harrelson, que com seu jeito meio debochado, gera alguns momentos de humor nas poucas cenas em que aparece. A bela Natalie Dormer faz bem a ambiguidade de Cressida, mas isso não é surpresa para quem a conhece por sua atuação na série “Game of Thrones”. Liam Hemsworth, entretanto, continua com a mesma apatia que já tinha mostrado nos filmes anteriores.
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Com um bom gancho que dá um gosto de “quero mais”, “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1” consegue a proeza de cativar fãs dos livros e até mesmo quem nunca os leu. Além da boa trama, o filme se destaca pela ótima direção de arte e os efeitos especiais.
É claro que, provavelmente, a parte mais emocionante, em termos de ação, da história foi deixada para o quarto e decisivo filme, previsto para estrear em novembro de 2015. O jeito é torcer para que o tempo passe logo para que vejamos o fim da luta de Katniss contra o maléfico Presidente Snow para salvar Panem.
Uma dica: Após o fim dos créditos, há uma pequena surpresa para quem curte essa saga.

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