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Crítica: “O Ano Mais Violento” e o fascínio de Hollywood pelo submundo

O submundo sempre exerceu grande fascínio sobre o público no cinema justamente pela complexidade de que é imbuído. Geralmente traduzido na figura dos mafiosos, o lado obscuro do poder, que é uma peça integrante da engenharia do sistema capitalista, ganhou um glamour ainda maior na cultura pop desde que ícones como os Corleone da saga “O Poderoso Chefão” e Tony Montana da versão de Brian de Palma de “Scarface” foram catapultados a categoria de heróis, e hoje seus rostos estampam souvenirs como canecas e camisetas nos quatro cantos do globo. É com base nos elementos que desenharam estes personagens, que foi construído Abel Morales, o protagonista anti-herói de “O Ano Mais Violento” (“A Most Violent Year”, EUA 2014), que estreou nos EUA na virada do ano e chega agora ao Brasil, depois de ter sido esnobado na temporada de prêmios. Recebeu apenas uma indicação ao Globo de Ouro na categoria Melhor Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain) e passou longe do Oscar.

O cenário é Nova York, 1981. Nesse que é considerado um dos anos mais violentos da História da cidade, o imigrante latino Abel Morales (Oscar Isaac) é o proprietário da Standard Oil, uma empresa em ascensão no ramo petrolífero. Ele e sua esposa Anna (Jessica Chastain), seu braço direito (e muitas vezes o esquerdo também) nos negócios visam expandir as atividades, mas têm de lidar com ataques, sabotagem, além da inerente corrupção e da decadência que domina este cenário.

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O diretor J.C. Chandor (de “Até o Fim”), que também assina o roteiro, deixa claro que sua influência na concepção do filme é o cinema americano da época em que a trama se passa, indubitavelmente o mais rico de sua História: os anos setenta e o início dos oitenta, quando os diretores tinham carta branca em Hollywood para seus projetos autorais. Não raro, cineastas atuais realizam obras que prestam tributo a esse período. Felizmente, Chandor não cai na armadilha de copiar um estilo de um diretor específico que teve seu auge nessa fase, como fizera David O’ Russell em “Trapaça” no qual ele reproduz o estilo de Martin Scorsese sob o conveniente manto da homenagem. Claro que aqui há elementos facilmente reconhecíveis: vemos uma narrativa que remete a O Poderoso Chefão pela natureza do mote, assim como sequências e planos típicos dos clássicos daquela década. No momento em que Abel persegue um caminhão na linha do trem em um túnel, é impossível não lembrar um pouco de “Operação França”. Ou quando o personagem faz suas corridinhas matinais, com roupa de moletom e touca e a imagem que vem à mente é a de Rocky Balboa em seu treinamento pelas ruas da Filadélfia. E isso amparado pela ótima fotografia de Bradford Young (“Selma”) que, como era de se esperar, emula a das películas da época.

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A construção dos personagens está entre os êxitos do filme, mas não teria um resultado tão assertivo se não fosse amparada pelo bom desempenho do elenco. O personagem Abel tem a plena ciência do que está fazendo, mas em alguns momentos demonstra hesitação (tal qual Michael Corleone) que se contrapõe à objetividade por vezes assustadora de Anna. Ele tem o cinismo de um mafioso clássico, mas também titubeia e reconhece até que ponto pode ir, característica de um típico protagonista anti herói de um filme daquela nova Hollywood dos anos 70. É um personagem rico em sutilezas, inteligentemente captadas por Oscar Isaac, confirmando o talento mostrado em “Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum”, da mesma forma que Jessica Chastain mostra que mereceu a indicação ao Globo de Ouro por esse trabalho. Com maturidade, ela faz um composição luxuosa e no tom certo.

No fim das contas, “O Ano Mais Violento” versa sobre o revés do sonho americano, mostrando que é possível um imigrante chegar na terra do Tio Sam e vencer, mas nem sempre pelos meios convencionais. A conjectura do sistema cobra um preço alto que cedo ou tarde há de ser pago.

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