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Crítica: “O Garoto da Casa ao Lado” falha como suspense devido a excesso de clichês

A partir da segunda metade dos anos 1990, Jennifer Lopez passou a se tornar uma das atrizes americanas, com raízes latinas, mais populares do cinema, graças a sucessos como “Anaconda”, “Irresistível Paixão”, “A Cela”, entre outros filmes. Mas, desde que estrelou o equivocado (e justo fracasso de bilheteria) “Contato de Risco”, junto com seu então namorado, Ben Affleck, em 2003, sua estrela passou a brilhar bem menos e ela começou um período complicado, com diversas decepções de público e crítica (as exceções foram “Dança Comigo”, em 2004, e “A Sogra”, de 2005). Mas seu nome ainda era bastante lembrado nos últimos anos, especialmente por seus trabalhos como cantora pop, que conquistou fãs em várias partes do mundo. Só que ela está querendo, há algum tempo, voltar aos tempos de glória em Hollywood e retornou aos sets de filmagem com mais frequência, para provar que ainda é capaz de lotar cinemas. O problema é que, para isso, Lopez precisa escolher melhor os projetos que participa, porque se depender de bombas como esse “O Garoto da Casa ao Lado” (“The Boy Next Door”), vai ser difícil para ela se tornar uma atriz mais respeitável.

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Na trama, Lopez vive Claire Peterson, uma professora de Literatura que está considerando terminar o seu casamento com Garrett (John Corbett), após uma traição do marido. Enquanto tenta reconstruir sua vida e cuidar do filho adolescente Kevin (Ian Nelson), Claire acaba conhecendo o jovem Noah (Ryan Guzman), seu novo vizinho, que se mostra muito prestativo, além de extremamente simpático e amante de livros antigos. Não demora muito para que o rapaz passe a frequentar regularmente a casa de Claire e conquiste a amizade de Kevin. Uma noite, após um encontro frustrado, ela recebe um telefonema de Noah, que pede ajuda num problema culinário. Papo vai, papo vem, os dois acabam jantando juntos e terminam a noite na cama. Só que, no dia seguinte, Claire se arrepende do que fez e diz a Noah que não quer mais nada com ele, a não ser apenas sua amiga. Mas ele não gosta nada disso e começa a pressioná-la para que ela mude de ideia ou vai revelar a todos o que aconteceu entre eles. Aos poucos, Claire percebe que Noah é um pouco mais complicado e violento do que transparecia e acaba pedido ajuda à amiga Vicky (Kristin Chenoweth) para evitar que algo de pior aconteça, ao mesmo tempo em que tenta descobrir mais sobre o passado do jovem.

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O principal problema de “O Garoto da Casa ao Lado” está no roteiro de Barbara Curry, cheio de clichês, facilmente identificáveis até mesmo para quem não assiste a muitos filmes de suspense. Por exemplo, quando Noah é apresentado, ele parece um adolescente qualquer. Mas a partir do momento em que é “rejeitado” por Claire, ele fica completamente desequilibrado de forma uma rápida e inverossímil demais. Além disso, o personagem se revela um gênio na informática, capaz de fazer coisas que muitos profissionais do ramo não conseguiriam realizar em casa com equipamentos comuns. Outro erro está na facilidade que o jovem tem para montar cenários para intimidar Claire, como escrever uma mensagem sobre a noite que transaram na parede de um banheiro sem que ninguém veja ou comente a respeito.

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Junto com o script ruim, a péssima direção de Rob Cohen também ajuda a manter a ruindade do filme e falha vergonhosamente em conseguir criar algum clima decente de suspense. O cineasta, que já viveu dias melhores quando realizou bons trabalhos em “Dragão: A História de Bruce Lee”, “Coração de Dragão” e “Velozes e Furiosos”, sua produção mais conhecida, está numa maré de azar desde “Stealth: Ameaça Invisível”, que foi um grande fracasso em 2008. Aqui, ele parece não saber como resolver cenas simples, como na sequência em que Noah dá para Claire um exemplar raro de “A Ilíada” e termina de forma amadorística, como se não tivesse a menor ideia para a sua conclusão. Para piorar, ele se entrega de vez aos absurdos da trama e faz com que o seu desfecho seja o mais exagerado e ridículo possível, chegando ao cúmulo de criar um momento que mais parece ter sido tirado da primeira versão de “A Morte do Demônio”, dirigida por Sam Raimi em 1981. Mas, para incentivar a autoestima de sua estrela, ele abusa de cenas que mostram que a protagonista ainda possui um belo corpo, debaixo de roupas insinuantes, especialmente as que evidenciam a sua “retaguarda”. Algo que, certamente, vai agradar ao público masculino. Mas soa extremamente desnecessário.

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Também produtora do filme, Jennifer Lopez não apresenta nada de diferente do que já tenha feito em seus outros trabalhos como atriz. O canastrão John Corbett, mais conhecido por seu papel em “Casamento Grego”, mantém basicamente a mesma expressão facial o tempo todo, não importa qual seja a situação. Kristin Chenoweth não tem muito o que fazer com sua personagem criada apenas para ser a melhor amiga da protagonista, assim como Ian Nelson, que não convence muito com sua revolta em relação aos pais, lá pelas tantas da história. Já o praticamente desconhecido Ryan Guzman teve a difícil missão de tornar, na medida do possível, seu vilão um pouco mais interessante. Só que, prejudicado pelo texto fraco e também por sua pouca maturidade como ator, seu esforço foi desperdiçado, já que, em nenhum momento, ele consegue tornar Noah intimidador. No fim das contas, ele ficou apenas um cara chato e irritante, mesmo quando está sorrindo para Lopez.

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“O Garoto da Casa ao Lado” lembra “Atração Fatal”, por causa de seu argumento, onde se troca a amante de meia idade revoltada por um adolescente revoltado. Mas o filme de 1987 de Adrian Lyne vira uma obra-prima do cinema se comparado com a produção (mal) comandada por Cohen. Além disso, Ryan Guzman não é Glenn Close e Jennifer Lopez, embora mais bonita do que Michael Douglas, é menos talentosa. Fraco como suspense e contando com uma péssima trilha sonora, só vale a pena para os fãs ardorosos da atriz, que merece projetos melhores.

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Publicado por Célio Silva

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