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Crítica: O Homem Que Elas Amavam Demais é a adaptação de intrigante drama real francês

Houve uma adaptação no título original “L’homme qu’on aimait trop” (O Homem que Amava Muito) para “O Homem Que Elas Amavam Demais” (L’Homme Qu’on Aimait Trop, França/2015), talvez por ter o tradutor achado que esse era mais condizente com o desenrolar da história, embora se for avaliar pelo sentido denotativo, o original também faria um certo sentido em relação ao homem do título desse drama francês baseado em um fato real que mobilizou a opinião pública no país por 37 anos.

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A trama se passa em Nice, na segunda metade dos anos setenta. A jovem Agnes Le Roux (Adèle Haenel), filha de Renée Le Roux (Catherine Deneuve), proprietária do Palais de la Méditerranée, se apaixona pelo advogado e conselheiro de sua mãe, Maurice Agnelet (Guillaume Canet) e o sentimento evolui para a obssessão. O caso acarreta reviravoltas não só na vida pessoal da jovem como nos negócios de sua mãe inseridos no contexto da disputa de influência entre cassinos na frança.

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O filme é uma adaptação do livro chamado Une Femme Face à la Mafia, escrito em 1989 pela própria Renée e seu filho Jean Charles, que tratou do caso de Agnes, mas o roteirista Cédric Anger junto com o dirtetor André Techiné (que também assina o roteiro juntamente com Jean Charles) resolveram optar por algumas liberdades em algumas passagens e diálogos. Filmes envolvendo casos de tribunal, salvo raras excessões, costumam vir envoltos em um trabalho de direção engessado, coisa que felizmente não acontece aqui. Amparado por um vistoso trabalho de edição, Techiné volta à cadeira de diretor após um hiato de três anos em plena forma aos 69 anos de idade, regendo um eficiente elenco e com suas lentes adornadas por um belo trabalho de fotografia muito favorecido pelas belezas sedutoras do sul da França, amplamente exploradas em travellings e planos abertos.

O trio de protagonistas funciona muito bem. Guillaume Canet imprime o charme cínico e evasivo à sua encarnação de Maurice, enquanto Adèle Haenel (de “L’Apollonide”) mostra maturidade ao escapar da traiçoeira armadilha da histeria ao compôr sua personagem, armadilha essa que poderia facilmente minguar o trabalho de uma atriz com menos cancha. E é sempre uma maravilha ver e rever Catherine Deneuve na tela, torcendo para que seja logo anunciado seu próximo filme, prolongando ao máximo sua presença em produções cinematográficas. Musa suprema do cinema francês, ela seguiu o caminho oposto de sua conterrânea e contemporânea Brigitte Bardot. Enquanto Brigitte para não ser escrava da beleza, abandonou a carreira e abraçou a causa dos direitos dos animais e a extrema direita política do país, Catherine preferiu envelhecer com dignidade e altivez em frente às câmeras mostrando evolução como atriz.

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Se o calcanhar de Aquiles de “O Homem Que Elas Amavam Demais” é a retidão do roteiro, isso é facilmente compensado pela execução da obra. É um belo exemplo de história verídica que poderia render um lacrimoso telefilme, mas teve melhor sorte ganhando uma correta adaptação cinematográfica. O filme chega aos cinemas brasileiros e norte americanos com um atraso de quase um ano (estreou na França em 16 de julho do ano passado), o que têm sido a média de tempo levado para termos acesso aos filmes de língua não inglesa.

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