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Crítica: “Pixels” não passa de fase, apesar dos ótimos gráficos

Desde o início da década de 1980, os jogos eletrônicos passaram a fazer parte da vida de boa parte da população mundial. Primeiro, nos fliperamas (ou “arcades”, como eram chamados nos EUA), onde as pessoas iam disputar partidas com jogos de corrida, batalhas espaciais e até mesmo de estratégia, com gráficos hoje considerados rudimentares, mas que garantiam a diversão. Com o passar do tempo, eles foram deixados para trás pelos vídeo games domésticos, como o Atari, que foram evoluindo cada vez mais com consoles criados por empresas como Nintendo e Sega, até chegar aos atuais campeões de vendas Playstation, da Sony (que está atualmente em sua quarta versão) e XBox, da Microsoft, além é claro, dos games criados para smartphones e tablets, nova mania entre os usuários de todas as idades.

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Hollywood percebeu essa tendência milionária e, já faz algum tempo, quer lucrar com isso. Primeiro, com adaptações bastante questionáveis de jogos como “Super Mario Bros.”, “Street Fighter”, “Double Dragon”, entre outros. Como não deu muito certo (apenas “Resident Evil” acabou se tornando uma franquia bem sucedida), agora a ideia é usar a nostalgia de joguinhos antigos para conquistar o público. Assim, a Disney realizou a divertida animação “Detona Ralph”, que obteve bastante sucesso, e a Sony vem agora com “Pixels” (idem, 2015), que utiliza de efeitos de ponta para reapresentar personagens famosos do fliperama para quem nunca os conheceu e, ao mesmo tempo, encher de alegria os corações do espectador um pouco mais velho ao rever carinhas conhecidas da infância ou adolescência. Pena que, mesmo com uma boa ideia nas mãos, o filme decepciona com um roteiro fraco, que não se sustenta por muito tempo, e ainda por cima apela para piadas fracas.

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A trama é centrada em Sam Brenner (Adam Sandler), que foi um grande jogador de fliperama quando era adolescente, mas acabou se tornando um simples instalador de aparelhos eletrônicos. Sua vida muda quando, uma nave alienígena chega à Terra e promove um ataque à uma base militar americana com naves que têm a mesma aparência e estratégia de ação do antigo jogo “Galaga”. Seu amigo de infância Will Cooper (Kevin James), que também é o Presidente dos Estados Unidos, pede ajuda a ele para tentar encontrar um jeito de como deter a ameaça. Logo, Sam descobre com outro colega, Ludlow Lamonsoff (Josh Gad) que os aliens, na verdade, se basearam numa mensagem em vídeo de jogos eletrônicos do passado e resolveram invadir o planeta usando os games como modelos para suas armas de combate. Assim, os dois ganham ainda a assistência da tenente-coronel Violet Van Patten (Michelle Monaghan), que lhes oferece armas especiais para confrontar os estranhos seres, além de outro ex-jogador, Eddie “Fire Blaster” Plant (Peter Dinklage), que teve alguns problemas com Sam anos atrás. O grupo, batizado de Arcaders, tem que impedir que o mundo seja destruído por personificações de Pac-Man, Donkey Kong, Centipede e Space Invaders, entre outros jogos. Mas o inimigo não é tão ingênuo quanto parece e Sam tem a sua grande chance de se tornar alguém de respeito.

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Inspirado num curta-metragem dirigido por Patrick Jean em 2010, “Pixels” vale a pena pela forma criativa que mostra os alienígenas como personagens de games clássicos de uma maneira até simpática e, ao mesmo tempo, ameaçadora. O 3-D, aliás, está muito bom, especialmente nas cenas em que os invasores “pixelizam” os humanos, o que cria uma tensão até inesperada para uma comédia. Outro momento inspirado do filme é quando os vilões usam imagens de ícone pop, como Madonna, a dupla Daryl Hall & John Oates e o ex-presidente Ronald Reagan como “porta-vozes” de suas mensagens ofensivas. A edição foi muito feliz e gera umas boas risadas. O problema é que, se a parte técnica do filme é impecável, o mesmo não se pode dizer do roteiro, escrito por Tim Herlihy e Timothy Dowling, que abusa dos clichês em alguns momentos, como por exemplo na subtrama envolvendo os personagens de Adam SandlerMichelle Monaghan, que começam se provocando, mas lá na frente o espectador já sabe como vai terminar.

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Além disso, não fica muito clara a inclusão do personagem Q*Bert (que já apareceu também em “Detona Ralph”) como uma espécie de mascote do time lá pelo meio da história, que tenta criar a mesma ambientação do clássico “Os Caça-Fantasmas”, mas sem sucesso. Outro problema grave está no desperdício de ótimos atores como Sean Bean (o Ned Stark de “Game of Thrones”) e Brian Cox (o vilão de “X-Men 2”, entre outros), que estão em papéis descartáveis e que nada acrescentam ao filme. Para piorar, algumas piadas são fracas e parecem reciclagens de outras produções estreladas por Sandler ou seus colegas de elenco e a parte final passa por algumas reviravoltas que não fazem o menor sentido. Parecem ter sido feitas apenas para serem convenientes para alguns personagens. Quem assistir ao filme vai entender o porquê.

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O diretor Chris Columbus foi o responsável por vários sucessos como os dois primeiros “Esqueceram de Mim” e as duas primeiras partes da saga de “Harry Potter” e parecia ser o cineasta ideal para “Pixels”. Embora saiba dar uma certa leveza e até uma certa urgência para a trama, pouco pôde fazer com um texto tão irregular, o que prejudicou o seu trabalho. À frente do elenco, Adam Sandler volta a fazer o mesmo tipo de “perdedor simpático” que já fez em vários outros filmes, o que demonstra sua preguiça em realizar algo diferente em comédia. O mesmo vale para Kevin James e Josh Gad, que acham que fazer rir é gritar e fazer cara de bobo, mesmo quando não é mais necessário. Quem realmente se destaca, no entanto, é Peter Dinklage, que deixa seu Eddie “Fire Blaster” Plant bastante divertido, mesmo sendo convencido e arrogante. Michelle Monaghan não tem muito o que fazer e parece estar ali só como enfeite mesmo, o que é uma pena.

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No fim das contas, “Pixels” até pode fazer sucesso junto ao público por causa de alguns momentos engraçados, o sabor de nostalgia que pode provocar aos fãs de games antigos e pelos ótimos efeitos especiais. Mas para o potencial que tinha o oferecer, o filme acabou ficando no meio termo, como um daqueles jogos que parecem ser muito legais mas que, depois de um tempo jogando, perde-se completamente o interesse porque suas fases são repetitivas e nada desafiadoras. Não foi desta vez que tivemos o filme definitivo sobre games em geral.

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