Ambrosia Críticas "Cyrano Mon Amour": a necessidade é a mãe de toda inspiração

“Cyrano Mon Amour”: a necessidade é a mãe de toda inspiração

A história de Cyrano de Bergerac é conhecida: Cyrano, um homem com um imenso nariz e um incrível talento, tem medo de ser rejeitado pela mulher que ama, Roxanne, por causa de sua aparência. Por isso, ele concorda em ajudar outro homem a conquistá-la, escrevendo lindos versos para este homem dizer à bela mulher que Cyrano acredita que nunca terá. Todos conhecem Cyrano. Porém, nem nos círculos mais intelectuais o criador do personagem, Edmond Rostand, era lembrado. Mas essa situação vai mudar com o filme Cyrano Mon Amour.

Edmond Rostand (Thomas Solivérès) escreve peças em verso. Depois de amargar um fracasso por dois anos, a atriz Sarah Bernhardt (Clémentine Célarie), protagonista de sua última peça, lhe apresenta o ator Constant Coquelin (Olivier Gourmet), um excêntrico profissional que encomenda uma peça para Edmond… para dali a alguns dias. Coquelin precisa apresentar um sucesso no teatro que alugou, ou terá de devolvê-lo. Será uma corrida contra o tempo para Edmond criar uma obra-prima – tarefa na qual ele não pode falhar.

As inspirações de Edmond, como as da maioria dos escritores, vêm de coisas simples do dia a dia: da fala de um dono de bar, daquela vez em que ele teve de ajudar um amigo a conquistar uma garota, de uma conversa despretensiosa, da observação rápida de um quadro. Como Edmond tem pouco tempo para escrever o que termina sendo uma peça em cinco atos, ele vai improvisando muito, tirando alguns detalhes literalmente das primeiras coisa que vê à sua frente, o que rende boas piadas visuais. Mas, se dizem que a necessidade é a mãe de todas as invenções, por que a mesma não poderia ser a mãe de toda inspiração?

Edmond é um personagem criado para o público gostar. Um completo perdedor no início, meio atrapalhado e sonhador, ele tem em mãos uma tarefa que tem tudo para dar errado – mas o público torce para que dê certo. É fácil torcer por Edmond, e é fácil também se identificar com Edmond. E fica ainda mais fácil porque a narrativa é tradicional, seguindo o formato da jornada do herói, ainda que com muita licença poética.

Ao criar um herói com quem o público se identifica tão facilmente, Cyrano Mon Amour quebra a ideia de que todo autor de sucesso é um gênio inspirado pelas musas. Sim, Edmond tem uma musa, e sua estranha ligação com ela não é necessariamente louvável, mas ele mesmo diz que, sendo escritor, é obrigatoriamente louco. Mesmo assim, sem ser gênio, ele precisou ser apadrinhado por Sarah Bernhardt, então a maior atriz do planeta, para obter sucesso. Não, não se engane: é preciso mais do que sorte e improviso para entrar para a história do teatro francês.

Um conflito no campo das ideias, não muito explorado, é o do neorromantismo contra o realismo – do estilo de Edmond, considerado antiquado, com o que estava em voga na época, as peças mais realistas ou lascivas. Mesmo os embates de Edmond com Georges Feydeau, que estava dirigindo revues de vaudeville e tendo muito êxito, são breves e pouco dramáticos – afinal, Edmond já tinha problemas demais com os quais se preocupar.

Como na maioria dos filmes de época – Cyrano Mon Amour se passa em 1897 – a direção de arte é belíssima, com destaque para a decoração do interior do apartamento de Edmond. Os figurinos também são ótimos, em especial os do teatro e os de todas as personagens femininas.

William Shakespeare escreveu Hamlet. Miguel de Cervantes é o autor de Dom Quixote. E hoje podemos falar, com propriedade, que Edmond Rostand é o criador de Cyrano de Bergerac. Em certa altura do filme, Coquelin diz à atriz que fará Roxanne que dali a cem anos ainda estarão encenando a história de Cyrano, e elogiando Edmond. Hoje, graças a Cyrano Mon Amour, podemos voltar a cantar as glórias, ainda que de improviso, de Edmond Rostand. E Cyrano de Bergerac, este continuará de pé por mais muitos séculos.

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