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“Depois da Chuva” vem a bonança… do cinema brasileiro

Habemus cinema! Com cada vez mais orgulho posso dizer que o cinema brasileiro está florescendo, renascendo, voltando-se para seu próprio passado para criar obras autorais, emocionantes, singelas e muito, muito pertinentes. “Depois da Chuva” é um dos filmes dessa nova safra. Originado a partir das lembranças do roteirista e co-diretor Cláudio Marques (a outra diretora é Marília Hughes), este primeiro longa da dupla tem o poder de despertar questões e paixões nas plateias.

siteO adolescente Caio (Pedro Maia) vive intensamente o momento da redemocratização brasileira. “Redemocratização” entre aspas, como o sagaz garoto nota, prevendo um futuro de oligarquia política em uma redação escolar que ele intitula “Demencracia”. Outra atividade de questionamento, esta mais aberta, é a participação de Caio em uma rádio pirata, na qual as transmissões são regadas por álcool e fumo. A redação reacionária leva a uma suspensão, que leva ao surgimento do fanzine de oposição “O Inimigo do Rei”, e tudo desemboca na candidatura de Caio a presidente do grêmio estudantil, na primeira eleição que ocorre na escola em 20 anos.

Recobrar os direitos é uma alegria, reacostumar-se com eles é um desafio, seja na vida em sociedade ou em uma supostamente simples eleição na sala de aula. Quem sabe votar? Quem merece votar? O que é saber votar? Há euforia, dúvidas, conflito, engajamento e decepção: o microcosmo da escola de Salvador serve de espelho para o macrocosmo da transição política nacional.

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A atmosfera dos anos 80 é recriada com perfeição. Falo isso não como alguém que viveu os anos 80, mas que já os estudou enquanto historiadora. Como não podia deixar de ser, é o rock pesado que domina a trilha sonora e traduz os pensamentos e sentimentos dos jovens protagonistas e coadjuvantes. Há um toque pesado, angustiado, todo grunge na fotografia do filme (em 16mm!!!).

Pedro Maia tem ares de Wagner Moura e um belo futuro pela frente. Escolhido a dedo para ser a força motriz do filme, Pedro mostrou grande talento e se tornou, aos 16 anos, o mais jovem ganhador do prêmio de melhor ator no Festival de Brasília. Ele é o destaque, mas todo o elenco jovem tem seu mérito, por serem tão verdadeiros em suas interpretações.

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É interessante notar, ao final dos créditos (porque sou daquelas que leem até a última letrinha da tela), que o filme foi selecionado em vários projetos culturais e oficinas. Sim, isso demonstra que é um produto de qualidade, que desde a fase embrionária foi reconhecido pelo seu potencial. Mas há outra questão levantada: só é possível fazer cinema no Brasil com esses apadrinhamentos? Não estou criticando os projetos, de modo algum, mas questionando por que é tão difícil fazer cinema no Brasil, por que os bons filmes demoram a ser lançados (“Depois da Chuva” ficou pronto em 2013) e por que eles vão parar apenas em salas minguadas das capitais, lá ficando por poucas semanas e depois desaparecendo. São questões que qualquer amante de cinema no Brasil deveria tentar responder, mesmo que para isso fosse gerado um debate tão grande quanto ou maior que o que gerou as Diretas Já.

O momento da estreia não poderia ser mais oportuno, e não apenas pelos 30 anos das Diretas Já. Com o início de um novo mandato presidencial, vimos reacender os debates sobre direito de escolha, dominação política e manipulação popular. Nesta semana, outro tema abordado no filme virou manchete: a liberdade de imprensa posta à prova no atentado à revista Charlie Hebdo. Qual a diferença entre um massacre na sede de uma revista e a suspensão de um aluno porque sua redação é considerada “inadequada”?

Não tente responder a nenhuma das perguntas acima, a não ser que você queira causar muita polêmica e despertar sentimentos contraditórios em si mesmo. É esse, a meu ver, o que define um ótimo filme: ele tem a capacidade de gerar mais perguntas que respostas.

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