Estou me guardando pra quando o carnaval chegar”, traz uma dramaturgia extremamente diferente, ainda que igualmente potente. No caso dele, o filme surgiu de sua necessidade pessoal de revisitar um lugar que fazia parte de sua memória afetiva: a região do Agreste.

Seu pai era fiscal, e por isso, viajava muito. Uma dessas viagens por essa região, entre o sertão e o litoral de Pernambuco, foi acompanhado pelo diretor Marcelo Gomes ainda criança. Hoje, anos mais tarde, durante essa busca, Marcelo se deparou com um acontecimento intrigante: todos os anos, os moradores da pequena cidade de Toritama vendem desesperadamente seus bens quando o carnaval está chegando, para poderem viajar e curtir uma semana de descanso na praia.

Decidiu então entender o que estava por trás desse ritual. Quando lá chegou, viu que a calma e o silêncio da espera na varanda, tão marcantes de suas primeiras impressões já distantes, haviam sido substituídos pelo ruído incessante do maquinário envolvido com a produção têxtil de jeans. Toritama havia se tornado a capital brasileira do jeans, responsável por 20% de toda a produção do país!

Marcelo se deparou, então, com uma cidade tomada pelo sentimento da produção autônoma, regida por uma única regra: quanto mais você produz, mais você ganha. A certeza do salário mais alto proporcional ao tempo de dedicação e ao número de peças trabalhadas fez com que os habitantes de Toritama abdicassem quase completamente de seus momentos de prazer e de descanso na busca de um “mais” constante. Nesse processo, casas e garagens foram sendo transformadas em “facções” de produção, fazendo com que a linha que divide o público e o privado, o labor e o lazer se desfizesse quase que completamente em meio a ambição espalhada e generalizada.

O choque inicial da mudança radical de paradigma na vivência de Toritama, presentes nas reflexões pessoais do diretor, é rapidamente seguido por uma indagação ao mesmo tempo existencial e de preocupação sociocultural: o que estas pessoas estão fazendo com o seu tempo? Este tempo precioso e que não volta?

Aquilo que Marcelo sublinha de maneira direta e abertamente parcial é a percepção de que os protagonistas desta transformação tornaram-se escravos deles mesmos. Tomados por esta nova faceta do capitalismo neoliberal, que silenciosamente se espalha, se embrenhando cada vez mais nos espaços do dia a dia, naturalizando nossa relação quase ininterrupta com o estado de alerta e de produtividade, e desmantelando as fronteiras entre labor e lazer, os habitantes de Toritama estão sempre reafirmando a satisfação dessa escolha, sob a talvez ingênua impressão de terem controle sobre estas decisões.

Apesar de fazer esse forte comentário em torno do capitalismo neoliberal e de questionar constantemente a sanidade desta nova prática trabalhista, o filme não se fecha numa crítica determinista e permite que a alegria das personagens, tão únicas de nosso cenário brasileiro, emane nas entrelinhas das ruidosas máquinas de costura.

A dramaturgia do filme é todo um capítulo a parte que também colabora na construção desta narrativa sensível que mescla humor e crítica social, memória e presente. Já na etapa do roteiro, o cineasta pensou que, pela primeira vez, estaria inserido no filme. Queria permitir que a audiência se aproximasse dos motivos por trás da decisão de investigar um determinado tema. Sua voz pauta momentos e encontros e nos revela sua intenção, assim como aprofunda os laços de afetividade demonstrados nas relações que se estabelecem entre diretor e personagens.

Ao apresentar o filme, Marcelo dedicou a sessão ao mestre do documentário brasileiro Eduardo Coutinho, e apesar de ter dito durante nossa entrevista que não vê tantas semelhanças entre seu trabalho e o do mestre, eu particularmente identifico em ambos a sensibilidade e a humildade necessárias para dar voz, respeitar e reconhecer as grandezas e fragilidades daqueles que aparecem do lado de lá da câmera.

Um filme lindo que consegue fazer refletir sem cair na tentação de simplificar e determinar, consciente de que a beleza talvez venha da confusão e das contradições contidas em suas questões.

Festival de Berlim: “Estou me guardando pra quando o carnaval chegar”
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