“Regra 34”, filme que conquistou o Leopardo de Ouro, o prêmio máximo do Festival de Locarno, na Suíça, é sem dúvida um dos filmes mais necessários para esses tempos atuais. A trama busca, de uma maneira cirúrgica, costurar um tema tabu com uma latente discussão sobre questões sociais e de gênero.
Simone (Sol Miranda) é uma jovem negra recém-aprovada no concurso da Defensoria Pública na área de direito penal, prestes a iniciar o estágio probatório. Durante o dia ela defende os direitos das mulheres e à noite faz performances sensuais como camgirl na internet ao vivo. Uma noite, um vídeo BDSM desperta sua curiosidade por essa seara.
Esse mote traz à tona diversas questões complexas quanto à forma de se vivenciar a sexualidade derrubando os preconceitos por terra, justamente para abordar o ainda espinhoso tema da liberdade sexual. A liberdade do corpo feminino em se colocar em todos os espaços como bem entender ainda causa um certo desconforto, e o filme já deixa explícito seu posicionamento na ousada cena inicial.

O BDSM (a sigla que denomina um conjunto de práticas consensuais envolvendo bondage e disciplina, dominação e submissão, sadomasoquismo) gera controvérsia tanto entre conservadores quanto entre liberais e feministas. E o longa assume a corajosa tarefa de abordá-lo com a naturalidade do que realmente é: apenas uma das diversas facetas da sexualidade humana. E mais corajoso ainda em colocar como protagonista uma mulher negra, geralmente associada à imagem de vítima da violência.
O roteiro coloca Simone em um duplo papel de defensora da liberdade feminina. Como advogada pública ela protege as mulheres da violência imposta pela sociedade machista e patriarcal onde o feminino já entra em desvantagem. Com sua webcam, defende a liberdade sexual das mulheres, o autoconhecimento, e o direito de ganhar dinheiro com isso, já que há um ávido público consumidor de fetiches.
No internetês, Regra 34 define que tudo que existe possui sua versão pornô. A camgirl seria a persona alternativa de Simone, mas pode ser exatamente o contrário.

A diretora Julia Murat – de “Histórias que Só Existem Quando São Lembradas” (2011) e “Pendular” (2017) – procura abordar o tema desatando todos os nós do moralismo e do preconceito, com uma direção segura, traduzindo em cada enquadramento e movimentação de câmera toda a complexidade da protagonista, e também dos personagens que a circundam, Coyote (Lucas Andrade), Lúcia (Lorena Comparato) e Marina (Isabela Mariotto). A cineasta em seu roteiro escrito ao lado de Gabriel Bortolini, acerta no desenho da personagem sem cair em nenhum momento na armadilha da objetificação.
Sol Miranda nos brinda com uma gigantesca atuação eivada de verdade e sutileza. O naturalismo de Simone é defendido de forma pulsante, no compasso da potência pretendida pela diretora.
Por fim, “Regra 34” é combativo, político, audacioso, singelo, terno, tudo em um só combo. E está ali para nos lembrar o quão potente é o instrumento de reflexão do qual o cinema pode se revestir.








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