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Festival do Rio – Première Brasil: Por que “O Lobo Atrás da Porta” é um dos melhores filmes brasileiros já vistos?

Minhas maiores referências e inspirações cinematográficas são, quase que em sua totalidade, internacionais. Entre a mediocridade terceiro-mundista e a pretensão pré pós cinemanovista, poucos nomes nacionais vertem em inspiração o que fazem com o Cinema daqui.

Fernando Meirelles, Karin Ainouz e Jorge Furtado são alguns poucos que transcendem esse (pesaroso) paradigma. E agora eu incluiria aqui o nome de Fernando Coimbra. Pode ser uma indicação precoce, mas seu primeiro longa-metragem, o arrasador “O Lobo Atrás da Porta” já é um dos melhores filmes nacionais recentes. E, junto com o notável “O Som ao Redor”, o melhor do ano.
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Na trama, para o desespero de seus pais (Milhem Cortaz e Fabíula Nascimento, dois dos melhores atores do país, em atuações tão perturbadoramente precisas), uma criança é sequestrada em um subúrbio do Rio de Janeiro. Logo surge a primeira suspeita (Leandra Leal, um talento que só tem se desenvolvido ainda mais a cada boa escolha de filme que faz) e, ao longo da investigação policial, vão se destrinchando as ambiguidades dos personagens, já que todos escondem segredos e desejos – e nem sempre os flashbacks a que o filme recorre para relembrar eventos efetivamente contam os fatos corretamente.

São muitos os fatores que tornam o filme magnífico: a fotografia – de um inspirado Lula Carvalho – revela uma Zona Norte Carioca sem qualquer resquício de caricaturas vis; é o filme de todo o Festival do Rio 2013, até o momento, com o melhor conjunto de elenco. Todos estão inacreditáveis, até a comediante Thalita Carauta (a Janete do Zorra Total) entra em cena para arrebatar. O roteiro é de uma habilidade narrativa que raramente vemos no Brasil e a montagem está consonante com este êxito. Existe uma dramaturgia tão forte, que a gente não consegue parar de assistir e se apegar às humanidades conflituosas que vão se pulverizando pela história.
loboE o final… o final é chocante em todos os sentidos, mas é no sentido de ser assustadoramente real em sua crueldade (houve casos recentes reais) que o torna cruelmente incômodo. “O Lobo Atrás da Porta” é bem sucedido em tudo o que se propõe, até em retratar a humanidade que há na mentira, a urgência inevitável da contrapartida e a impotência que mimetiza suas consequências. Um grande filme que, pessoalmente, me inspirou na visão de que fazer Cinema com dignidade no meu país não só é possível como também é necessário. O filme só deve estrear de fato lá pelo primeiro semestre de 2014, mas quem não conseguiu assistir no Festival, deleite-se, pelo menos, com esse trailer magnífico (veja abaixo!), que dá o tom do que o universo de Coimbra requer do interlocutor. Totalmente devastado ao fim da sessão, só consigo reiterar: não deixem de assistir, por favor!

[xrr rating=5/5]

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