Joias Brutas: tensão e ganância nas telas | Críticas | Revista Ambrosia
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Joias Brutas: tensão e ganância nas telas

Logo no começo de Joias Brutas, a imagem do interior de uma pedra preciosa se transforma na imagem do interior de um corpo humano submetido a uma colonoscopia. O humano dono do corpo é Howard Ratner (Adam Sandler), um joalheiro viciado em fazer apostas em jogos de basquete.

Howard recebe uma opala negra em estado bruto, pedra que negociou um ano antes com isolados judeus africanos. A pedra vem dentro de um peixe congelado, e na empolgação Howard a mostra para um de seus clientes, o jogador de basquete Kevin Garnett, que a pede para usá-la como amuleto no jogo seguinte. Contrariado, Howard cede, e Kevin some com sua pedra. Esse, claro, não é o único problema de Howard: ele também penhorou o anel que Garnett lhe deu como garantia, e tem dois cobradores de dívidas atrás dele.

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Joias Brutas pertence a um filão de filmes que trazem como tema a ganância absurda. Frente a um tema tão amplo, este filão produziu obras bastante diversas, como Grande Hotel (1932), A Síndrome da China (1979) e O Tesouro de Sierra Madre (1948), que claramente muito influenciou o filme dos irmãos Safdie. Eles, aliás, trabalharam no filme por quase uma década, tendo oferecido o roteiro a Adam Sandler pela primeira vez em 2009.

Sandler, que é mais associado à comédia, já mostrou sua versatilidade em papéis dramáticos em filmes como Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe (2017), de Noah Baumbach, e Embriagado de Amor (2002), de Paul Thomas Anderson. Por vezes, em Joias Brutas, a maré de azar de Howard parece até divertida – e quase sempre sentimos que ele merece tudo o que está acontecendo. Não é à toa que, numa cena de celebração da Páscoa judaica, Howard tenha de ler uma passagem na Torá sobre pragas.

Além de Sandler e do jogador de basquete Kevin Garnett interpretando a si mesmo, temos no elenco LaKeith Stanfield, que causou boa impressão com um papel pequeno em Corra! (2017), como o negociador picareta Demany, e o novato truculento e de voz abafada Keith Williams Richards como um dos cobradores atrás de Howard – Joias Brutas é o primeiro filme deste homem que se tornou ator por acaso.

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Joias Brutas foi recebido com muitos elogios de um lado e indiferença de outro. Com Sandler cotado inclusive ao prêmio de Melhor Ator, o filme acabou esnobado no Oscar. Se por um lado foi criticada a participação mínima de Anna Paquin em O Irlandês, com apenas em algumas falas, por outro as vozes se calaram e não disseram nada contra o fato de Joias Brutas ter apenas duas personagens femininas mal-aproveitadas: a amante e funcionária de Howard, Julia (Julia Fox), e a esposa Dinah (Idina Menzel), essa sim que merecia mais destaque.

Joias Brutas acaba do mesmo jeito que começa, com a câmera entrando pelo corpo de seu protagonista. Neste momento, vemos a corrente sanguínea refletir novamente o padrão da opala negra, talvez simbolizando que temos um universo precioso dentro de nós – ou que tudo o que buscamos está dentro de nós. Mas talvez o filme não tenha a intenção de terminar com uma lição. Tenso, por vezes divertido em seu absurdo e com um final surpreendente, Joias Brutas parece que precisava de mais lapidação para a Academia gostar dele, mas os olhos bem treinados saberão apreciá-lo.

Cotação: Bom (3 de 5 estrelas)

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