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José Padilha, seu Robocop e a propriedade civil carioca

Com a moral elevada pelo sucesso de público e crítica com um dos melhores filmes brasileiros da safra atual, Tropa de Elite 2, o diretor José Padilha chegou a Hollywood com cacife para escolher o filme que quisesse dirigir num cardápio bem interessante do estúdio MGM. Ao fim da sessão, pude compreender perfeitamente o porquê da escolha do remake de Robocop.
A relação entre instituição, poder e corrupção retratada ali é uma ressonância do que se vive aqui, principalmente no Rio de Janeiro, terreno da qual Padilha tem muita propriedade. A crítica, de um modo geral, se dividiu e a bilheteria americana anda bem aquém do esperado. Tolice, o filme é bem melhor do que a média do gênero.
O mundo não é o mesmo daquele em que o diretor Paul Verhoeven estreou o filme original. O senso de humor era a tônica para representar a paranoia ianque e Paul soube equilibrar isso com a pungência da violência de seu filme. É um clássico, mas hoje soa datado. Padilha captou a urgência (tão latente em seus “Tropas”) e fez um filme banhando a cinismo cívico, militar e cultural (a última cena é sintomática, assim como a que finalizava Tropa 2).
Na trama, conhecemos o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman), que está investigando um caso que pode prender pessoas influentes da polícia de Detroit. Porém, Murphy sofre um atentado. Assim, torna-se o exemplar perfeito para a OmniCorp, dirigida por Raymound Sellars (Michael Keaton), que criou um sistema de robôs policiais, que já funciona em vários países, mas que ainda não tem a liberação nos Estados Unidos. Com isso, Sellars quer colocar um elemento humano dentro da máquina para que a opinião pública passe a ver este policial com outros olhos, e assim ter um policial imbatível, que seria implacável contra o crime na cidade.
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Óbvio que sem grande profundidade discursiva, afinal, trata-se de um exemplar da máquina Hollywoodiana de cinema. Mas dentro do que pode burilar, Padilha foi muito eficiente. Do sensacionalismo midiático, passando pela relativização (bem construída) do vilão institucional e a discussão sobre a legitimidade do livre arbítrio no híbrido homem-máquina, o roteiro atualiza sua alegoria robótica, sem sacrificar a objetividade do momento.
A fotografia do brasileiro Lula Carvalho é um ganho vital e as atuações (a economia de gestos do ótimo Joel Kinnaman e o domínio cênico de Gary Oldman), fazem de Robocop um exímio cartão de visitas para José Padilha no mercado dos EUA. Assim, o mundo aprende que o Brasil sabe se contextualizar para além de um caricato cacho de bananas na cabeça…

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Publicado por Renan de Andrade