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“Legalize Já” mostra a amizade entre Marcelo D2 e Skunk

Uma das bandas mais polêmicas da cena dos anos 90, o Planet Hemp até que demorou para ganhar uma (merecida) cinebiografia. A banda, influenciada por Beastie Boys, Cypress Hill e Bezerra da Silva, falava abertamente sobre liberação da maconha, lotava shows que não raro terminavam precocemente por intervenção policial. Mas “Legalize Já – A Amizade Nunca Morre” (Brasil, 2018) não foca na trajetória de sucesso e problemas com a lei da banda de Marcelo D2. A trama se concentra em sua gênese, no início da década de 90, e na amizade de Skunk e D2.

Luis Antonio (Ícaro Silva) é um jovem músico, revoltado com a desigualdade que coloca comunidades de baixa renda em condições tão adversas. Sob a alcunha de Skunk, ele usa a música como arma para combater o sistema opressor. Ao conhecer Marcelo (Renato Góes), um vendedor de camisas de bandas de heavy metal, sua veia de compositor aflora ainda mais. O gosto pelo mesmo estilo musical os aproxima, assim como a habilidade de Marcelo em compor letras de forte cunho social e questionador. A princípio relutante, Marcelo adere ao projeto de Skunk, adentra o universo da música e, juntos, formam a banda Planet Hemp.

O filme se configura dentro da fórmula certinha das cinebiografias brasileiras. No entanto, sobressai-se por seu apuro estético, utilizando uma fotografia que reduz as cores e com uma granulação que dá um tom documental. Em alguns momentos lembra até os primeiros videoclipes do Planet. A montagem de Marcelo Junqueira também é outro grande trunfo do longa.

O processo de produção foi longo, quase dez anos, e chegou a ser exibido no Festival do Rio de 2017. Passou pela mão de quatro roteiristas, houve problemas de captação, além da associação imediata da banda à legalização das drogas, que afastava parceiros. Mas os diretores Johnny Araújo e Gustavo Bonafé insistiram no projeto e também no nome, que, apesar de polêmico, é a principal bandeira da banda.

O filme é de fato um tributo a Skunk, que Ícaro Silva interpreta com correção. Renato Góes que vive D2, também tem uma atuação honesta e convincente, apesar de ter um tipo físico mais atlético do que o músico, que na época era bem magrinho. Johnny e Gustavo fazem um trabalho de direção respeitoso, prestando homenagem aos bibliografados, mas sem cair na armadilha do endeusamento ou, pior, da caricatura, um risco a que toda cinebio de personas rebeldes está sujeita.

“Legalize Já”, além de contar a história das origens do Planet Hemp, também proporciona uma viagem à cena musical independente dos anos 90, sempre alfinetando os modismos do mainstream. Mesmo com algumas incorreções cronológicas (como Na Boquinha da Garrafa tocando em 1993, ou o cartaz com o anúncio do show do Ramones no Canecão, que foi em 1992, estampado em um muro em 1994), dá o tempero de nostalgia ao longa.

Cotação: 3.5/5

Cesar Monteiro

Publicado por Cesar Monteiro

Um viciado em cultura pop que adora compartilhar seu vício com o maior número de pessoas possível