O Rei Leão: fidelidade ao original é uma benção mas também o fragiliza

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Cá entre nós: se a Disney relançasse “O Rei Leão” em grande circuito, com toda a pompa e circunstância, sob o pretexto de comemorar os vinte e cinco anos completados esse ano – a exemplo do que a Lucasfilm fez nos vinte anos de “Star Wars” – o sucesso seria mais do que garantido. Haja vista as sessões especiais que volta e meia acontecem até hoje, sempre com casa cheia. Mas embalada pelos rios de dinheiro que têm rendido as reedições live action de seus clássicos, a casa do rato não poderia deixar sua animação mais aclamada de fora da festa.

Até porque… Quem nunca imaginou como seria “O Rei Leão” com animais de verdade? Sobretudo após “Jurassic Park” e “Babe: O Porquinho Atrapalhado”. O sinal verde definitivo foi dado após o êxito (técnico e lucrativo) de “Mogli: O Menino Lobo”, quando Jon Favreau, com seus bichos digitais falantes espantosamente convincentes, mostrou aos patrões que era possível trazer Simba e Mufasa à vida da maneira mais realista.

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A confirmação de que o live action (ou se preferir, fotorrealismo, uma vez que não há um grão de areia sequer que não tenha sido gerado em pixels) seria produzido gerou euforia, assim como o primeiro trailer. Mas logo, os fãs da fita VHS verde se viram em um misto de júbilo e desconfiança. Afinal, como reproduzir certas sequências icônicas que se valiam a antropomorfizarão cartunesca para funcionar de forma satisfatória dentro de uma proposta de emular a natureza com rígida literalidade?

“O Rei Leão” 2019 (“The Lion King”, EUA) segue à risca o mote original. O jovem príncipe leão Simba é expulso do reino por seu tio cruel, que lhe atribui a culpa da morte do pai. Enquanto o tio governa com patas de ferro, o príncipe cresce para além da Savana, vivendo por uma filosofia: “não se preocupe com o resto de seus dias”. Mas quando seu passado o assola, o herdeiro legítimo deve decidir seu destino: destronar o tio impostor e restaurar o balanço do ciclo da vida.

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A fidelidade e reverência à obra original são de fato trunfos da produção, mas ao mesmo tempo seu calcanhar de Aquiles. A aposta no revestimento nostálgico impede qualquer mácula ao cânone e aquece o coração do fã pela memória afetiva, mas essa também o empurra para a inevitável comparação. E o longa de 1994 sempre leva vantagem. Seria mais sábio se Favreau tivesse escolhido o caminho seguido em “Mogli”, que de fato trouxe uma releitura, fazendo acenos à contraparte animada. Todavia, é sentido a todo momento o peso de se estar lidando com um trabalho considerado sacrossanto, ainda vívido na retina das crianças de duas décadas atrás, hoje jovens adultos que ainda zelam fervorosamente pelo filme que moldou seu gosto pelo cinema.

Daí, ao contrário do recente “Aladdin”, que adaptava sem grandes mudanças outro peso pesado do período Renascença dos estúdios Disney (1989 a 1999), mas oferecia novos elementos, perspectivas e até adições de personagens, o novo “Rei Leão” faz o mesmo que “A Bela e a Fera”: basicamente uma versão estendida, com uma alteração ou outra em algumas linhas de diálogo e enquadramentos. Há novas passagens, mas nada que acrescente muito ou desconstrua ao que já fora estabelecido. Um verdadeiro banho de água fria nos que passaram os últimos meses tecendo teorias sobre uma possível expansão do universo, trazendo até elementos dos livros e HQs baseados nos personagens – que existiram, mas não saíram no Brasil. No entanto, Favreau se saiu melhor em captar boa parte da magia da matriz do que Bill Condon em sua reprodução redundante sem alma da animação de 1991.

 

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O diretor cada vez mais querido da Disney (vale lembrar que ele deu o pontapé inicial no MCU com “Homem de Ferro” e é responsável pela série de Star Wars, “O Mandaloriano” para o Disney +) se vale do aperfeiçoamento da tecnologia estabelecida em “Mogli” para comandar uma atração ainda mais impecável tecnicamente. Custa aos olhos acreditar que tudo aquilo foi gerado em computador. Um detalhe curioso é que a empresa responsável pela mágica, a MPC, realizou o trabalho de colorização do clipe ‘This is America’, de Childish Gambino, pseudônimo de Donald Glover, a voz de Simba no original.

Entretanto, assim como a nostalgia, o realismo oferece algumas armadilhas em reproduzir alguns momentos clássicos. O número ‘Circle of Life’, que abre o filme, continua soberbo, mas o compromisso com a verdade tira um pouco da atmosfera bíblica que a animação conferia à apresentação do recém-nascido Simba ao mundo. Outros números musicais também tiveram de ser adaptados para caber na nova proposta. ‘I Just Can’t Wait to Be King’ ficou menos feérico e a fanfarra bufona ‘Hakuna Matata’ mais contida. A praticamente ausência de expressões faciais humanas atacadas por muitos críticos de fato diminui um pouco a empatia, mas são compensadas com os movimentos exatos dos animais de verdade em situações de alegria, medo ou raiva.

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E seguindo o antecessor, esse aqui também apostou em um elenco estelar, trazendo, além de Glover fazendo a voz de Simba, Beyoncé como Nala, Chiwetel Ejiofor como o vilão Scar, John Oliver no papel do pássaro Zazu, e, claro, James Earl Jones, mais uma vez emprestando seu vozeirão a Mufasa. Todos se saem bem. Até mesmo Ejiofor, que a exemplo de Will Smith em “Aladdin”, tinha a árdua missão de substituir uma personificação tão marcante, no caso a de Jeremy Irons na versão de 1994. Beyoncé, não é segredo, está ali para tentar buscar mais um Oscar de canção original com a (apenas boa) nova música ‘Spirit’. Sua performance abrilhanta ‘Can You Feel the Love Tonight’, dentro do esperado.

O trabalho dos dubladores foi fundamental na construção em geral satisfatória dos personagens. Timão e Pumba ficaram em boas mãos (ou melhor, vozes) com Billy Eichner e Seth Rogen respetivamente. As hienas deixam a desejar. Em maior número, não têm a mesma graça da versão animada. Whoopi Goldberg fez muita falta, e o roteiro não foi tão favorável à ardilosa Shenzi, dessa vez defendida por Florence Kasumba.

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“O Rei Leão” não é o melhor live action da Disney. O título ainda pertence a “Mogli”. No ranking dos remakes ele ficaria emparelhado com “Aladdin” e “Cinderela”. O deslumbre visual assegura um espetáculo que deve ser conferido na telona (a maior da sua cidade) e pode ser encarado (por que não?) como uma bela celebração de uma obra perene. Porém, se a Disney vai insistir mesmo em revisitar seus títulos abraçando as novas gerações e fãs saudosistas, seria interessante rever o modus operandi, permitindo mais liberdade e ousadia nos próximos projetos. Se o trailer não nos enganou, “Mulan” tem potencial para ser esse divisor de águas.

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