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Por que "O Lobo de Wall Street" é tão importante para Martin Scorcese

“O Lobo de Wall Street” é o êxito de um lobo que há muito não uivava vigor numa indústria da qual agregou tanta personalidade: Martin Scorcese.
Reconhecido como o maior diretor americano vivo, Martin vinha num processo de auto descaracterização artística em seus últimos filmes, que em nada lembrava o diretor de alta retórica cultural, sendo uma das pontas de lança do cinema norte americano dos anos 70, ou seja, redefinindo a noção industrial e a perspectiva factual do cinema do mundo a partir dali. Seus últimos filmes refletiam a caretice e o um aparente cansaço criativo, expressos em grandiloquências vis (“O Aviador” e “Gangues de Nova York”), pretensões de auto afirmação (“Vivendo No Limite”) ou até banalizações de referências fílmicas (“A Invenção de Hugo Cabret”).
São raros os momentos de genialidade recente, como no excepcional “Os Infiltrados”, em que consegue tornar um remake um exercício de sua identidade. “O Lobo de Wall Street” é o Scorcese gênio dos anos 70 de volta. É o Scorcese voltando a dar sentido fílmico a sua realidade vigente. É o Scorcese filmando com a paixão da jovialidade. “O Lobo de Wall Street” é um dos filmes mais importantes do cinema moderno. Baseado no livro impressionantemente autobiográfico do ex-corretor da bolsa de valores Jordan Belfort, que fazia de sua aguda falta de escrúpulos um meio de lesar possíveis investidores nos EUA dos anos 80 e 90, o roteiro de Terence Winter, o responsável por uma pérola chamada “Sopranos”, num híbrido de intensa criatividade com a direção inspirada de Scorcese, narra a história do protagonista sem distanciamentos, de dentro para fora, sob a visão do biografado. Seu deslumbramento é pontuado por recursos dramáticos que parecem endossá-lo, mas o diretor é muito mais esperto e não se deixa levar pela sedução do universo que retrata. Em meio a tanto sexo, drogas e dólares, joga no colo do expectador o intertexto da debilidade humana que retrata. Mas para além disso, trata-se de um filme que retrata com impiedade uma América se corroendo pelas próprias entranhas capitalistas que tanto professa. Jordan Belfort é filho da cultura de sua nação e se desenvolve na deturpação disso.

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Leonardo DiCaprio faz de seu Wolf o papel da sua vida. Nunca extraiu tanta insanidade e cinismo de seu interior para um papel. Nem quando foi a melhor coisa de “O Aviador”. Mas é um filme de um dono só: Martin Scorcese. O que faz da história que tem em mãos é tão subversivo – do ponto de vista do que nos jogam hoje no cinema – e tão preponderante – do ponto de vista do mundo em que vivemos hoje, que “O Lobo de Wall Street” poderia muito bem ser lançado na mesma década de suas outras obras-primas como “Táxi Driver” e “Os Bons Companheiros”. Quem consegue captar o que ele quer dizer com aquela sequência de finais (tanto do agente do FBI no metrô, quanto do protagonista palestrando), vai entender por que Scorcese é um gênio até para fazer de fato tão particularmente americano, num exercício analítico de nossos próprios escrúpulos. Um filme obrigatório.

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Publicação Renan de Andrade