“Rio” é bom para os olhos, para os ouvidos, e para o que resta de nosso ufanismo

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"Rio" é bom para os olhos, para os ouvidos, e para o que resta de nosso ufanismo | Filmes | Revista Ambrosia

O mundo mudou. E sua percepção global de cultura parece que também. Hoje qualquer fiapo de caricatura estética é um pecado mortal na personificação fílmica de um país. Ou seja, Carmem Miranda e um tal de Zé Carioca (sob a benção milionária da Disney) hoje, não teriam espaço iconográfico na cultura POP, como sendo entendido hoje.

Tudo isso para falar do êxito incontestável da animação RIO, atração ianque, dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha. O filme mais do que personificar, consegue captar como poucos o espírito tupiniquim da cidade, numa história simpática e destituída de maneirismos irônicos a La Pixar, mas que nem por isso se dissocia de uma graça inteligentemente leve.

E sua trilha sonora, por sinal, muito criticada pela imprensa brasileira, é um barato e muito interessante sob a ótica da interpretação americanizada de nossa bossa. Não entendi bem essa aversão que se pautava pela crítica ao lugar comum da sonoridade escolhida, até porque desde os clássicos “noventistas” da Disney, a cada animação pautada em determinada cultura,a ambientação sonora procura um diálogo entre as bases culturais (clichê sim) do universo retratado com a levada vendável do que se está em voga no momento. Isso nem sempre resulta bem, mas aqui a coisa fica muito harmoniosa e curiosa.

A belíssima Real In Rio que conduz uma das aberturas cinematográficas mais deslumbrantes já feitas diz muito sobre a trilha como um todo. Até a batida Mais Que Nada de Sérgio Mendes é gostosinha (isso desde o trailer). O pseudo samba-enredo Sapo Cai, de Carlinhos Brown funciona bem tanto dramaturgicamente quanto no “menu” de nosso MP3. Assim como a baladinha safada de Jamie Fox, Fly Love, que tem em seu DNA uma forte presença bossanovista.

Claro que a trilha tem seus equívocos como as desnecessárias Samba de Orly, com Bebel Gilberto e Valsa Carioca, mais uma vez com Mendes, sem dúvidas, grandes canções, mas nitidamente deslocadas por ali. Mas o CD é uma delícia e o elenco (contando com Jesse Einsenberg e Anne Hathaway) parecem estar bem inteirados com a melódica da coisa que é unir a sonoridade nativa com os interesses POP de um filme de verão americano.

Filme e trilha em compasso, agora é só aguardar para ver como o país conseguirá ser muito mais do que um fantoche político da BRIC’s e tornar-se relevante para além de uma interpretação carnavalizada gringa.

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