Os especialistas dizem que um vinho só fica bom com o passar dos anos. Quanto mais velho, melhor o seu sabor. Creio que a mesma analogia possa ser usada para falar da parceria entre o diretor Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, que ao longo de sua promissora e bem sucedida carreira de ator, encontrou nos papéis oferecidos pelo diretor, seus maiores desafios. Conseguindo assim mostrar um talento que antes era meio questionado pela crítica.
Em “O Lobo de Wall Street”, sua quinta parceria com Scorsese, Leonardo DiCaprio consegue mostrar uma faceta diferente da qual o público está acostumado o que certamente irá surpreender a todos.

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Jordan Belfort (DiCaprio) quer se tornar um corretor da bolsa, mas primeiro precisa chegar ao nível 7 para conseguir seu certificado. Em seu primeiro emprego na Wall Street, seu chefe (Matthew McConaughey) o leva para almoçar e diz que o segredo para ser sucedido neste ramo é simples: sexo, drogas e muita lábia. Não querendo fazer feio, Belfort se dedica ao máximo, alcançando o nível 7 e consequentemente, seu certificado, para logo em seguida a empresa vir a falir. Desempregado e querendo continuar a trabalhar como corretor ele encontra um anúncio nos classificados de uma pequena agência que vende penny stocks (títulos de baixo valor de mercado) e que eleva os preços dos títulos, super faturando, para poder ganhar uma bela porcentagem em cima dos clientes. Não demora muito, Jordan se torna o melhor funcionário dessa pequena empresa e passa a ganhar consideravelmente bem o que acaba chamando a atenção de Donnie Azoff (Jonah Hill), seu vizinho, que lhe aborda e se oferece para trabalhar com ele. Jordan larga seu emprego na agência e decide abrir seu próprio negócio, levando consigo alguns colegas de trabalho, todos da pior espécie possível.

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Inebriado (pelas drogas) e pela ideia de faturar muito, surge assim a Stratton Oakmont. Graças aos títulos vendidos a preços abusivos que não dão ao cliente a menor chance de lucro, a empresa de Jordan se torna um enorme sucesso, o que ele faz questão de comemorar com muitas orgias, drogas, festas e mais festas, muitas delas dentro do escritório. Cego por conta do próprio sucesso, os problemas começam a surgir e Belfort se vê numa espiral decadente de álcool, mulheres (apesar de ser casado), cocaína como água e muita pílulas. E a descida vai ser igual a subida: rápida e dramática.

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Este não é um típico filme do Martin Scorsese, apesar de ainda assim ser claramente um filme dele. Todos os planos, cortes, fotografia e claro, roteiro e atuações, apontam claramente para quem o dirige. Então, como pode não ser típico? Simples. Scorsese decide elevar a máxima potência a linguagem usada para contar a história, ao invés de ser mais sutil e sagaz, como sempre o é, ele preferiu meter os dois pés na porta e sair arrebentando com tudo. Claro que no bom sentido.
É fato de que crimes foram cometidos, mas as circunstâncias que os envolve são tão absurdas que ele preferiu focar mais nesse aspecto do que nos crimes em si. Ponto para ele que optou em ir mais a fundo nos bastidores do negócio e mostrar como o dinheiro além de cegar as pessoas consegue transformar completamente o caráter delas. A princípio, Jordan era um homem correto, casado com Teresa e que tinha sim ambições, queria crescer na vida como todo bom homem, as custas de um trabalho digno e muito esforço. Mas, ao se tornar um “maria vai com as outras”, Jordan jogou o caráter as favas em prol de ficar milionário a qualquer custo.

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E essa mudança é nítida graças a formidável atuação de Leonardo DiCaprio, pois é possível notar as transformações do personagem ao longo do filme e ficar estupefato com a dedicação que o ator teve para com esse papel que convenhamos, não é dos mais fáceis. O que acabou lhe rendendo o Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme Comédia/Musical e uma indicação ao Oscar de Melhor Ator.
Saindo totalmente de sua zona de conforto, DiCaprio e elenco participaram de cenas de sexo grupal, ménages, sadomasoquismo, orgias e muita cocaína. Muitas dessas cenas, não contavam com dublês. Eram os próprios atores lá, pelados ou loucos por causa das drogas, que são na verdade vitaminas trituradas para que eles pudessem ‘aspirá-las’ sem qualquer dano mais sério do que narizes um pouco ardidos. Ainda assim, toda essa loucura não tira o mérito de ninguém, muito pelo contrário, acrescenta mais status ao trabalho de todos. Pois, mesmo que não pareça, se trata de uma comédia, repleta de humor bem ácido, cenas de sexo e crimes graves, mas continua sendo uma comédia.

Se engana quem pensa que Martin estava brincando com assunto sério ou que Leonardo DiCaprio e Jonah Hill foram longe demais. Afinal, o mundo é feito de todo tipo de gente certo? Então, porque insistir em conhecer só o lado bom delas? Não. Toda moeda tem duas faces e é preciso conhecer ambas. Por mais absurdo que seja, assim é o ser humano.