em ,

“Sicario: Dia do Soldado” não chega nem perto da excelência do filme original

Após chamar a atenção com “Os Suspeitos” e antes de se consagrar com as ficções científicas “A Chegada” e “Blade Runner 2049” (e com uma nova adaptação de “Duna” a caminho”), o canadense Denis Villeneuve comandou “Sicario: Terra de Ninguém”, drama policial que dividiu opiniões, mas ganhou status de cult por sua visão peculiar sobre a questão dos cartéis de drogas na fronteira entre os Estados Unidos e o México, pelo ponto de vista de uma agente do FBI vivida por Emily Blunt. Sua personagem se vê num dilema moral e ético ao participar de uma operação contra os traficantes, onde logo percebe que até mesmo os homens da lei são capazes de cometer atos tão cruéis quanto aqueles que deveria combater.

O filme mostrou que Villeneuve, aliado a um estupendo trabalho de fotografia de Roger Deakins, uma trilha sonora marcante de Johánn Johannsson e atuações marcantes do elenco (principalmente de Benicio Del Toro), era realmente um diretor diferenciado e capaz de deixar sua marca nas produções que dirige. O que praticamente ninguém se deu conta é que “Sicario: Terra de Ninguém” era, na verdade, a primeira parte de uma trilogia, algo raro de se ver num filme deste estilo e que os produtores já estavam pensando em suas sequências. E a primeira continuação surgiu com o nome “Sicario: Dia do Soldado” (“Sicario: Day of the Soldado”, 2018), que volta a esse universo com parte do elenco do filme original, mas sem Villeneuve no comando. E isso é uma das grandes diferenças deste segundo capítulo, que acaba sendo eficiente nas cenas de ação, mas perde feio em todo o resto na comparação inevitável com a primeira parte.

Desta vez, a trama mostra que os cartéis de drogas estão também traficando pessoas, incluindo aí extremistas islâmicos, que conseguem entrar ilegalmente nos Estados Unidos pelo México e cometendo atentados com homens-bomba já em território americano. Para dar uma resposta, o governo manda chamar o agente federal Matt Graver (Josh Brolin) para comandar uma operação secreta contra os traficantes. Matt, então, tem a ideia de fazer um grupo se voltar contra o outro e, assim, eles acabariam se destruindo em uma guerra particular.

Ele decide contatar novamente o implacável e imprevisível Alejandro (Benicio Del Toro) para que o ajude a sequestrar Isabel Reyes (Isabella Moner), filha de um dos chefões de um dos maiores cartéis mexicanos para que seu plano dê certo. Só que nem tudo sai como o esperado e tanto Matt quanto Alejandro se metem numa situação que pode não só prejudicar a operação, mas também a relação entre os dois países, além de ter consequências terríveis para os dois.

A primeira coisa que chama a atenção em “Sicario: Dia do Soldado” é como faz falta a participação direta de um cineasta como Villenueve. Embora seja competente, o italiano Stefano Sollima, que se destacou dirigindo parte da série de TV “Gomorra” (sobre a máfia napolitana), não faz nada de inovador ou original em seu trabalho. O diretor até se sai bem nas cenas de ação, principalmente as duas que abrem o filme e nos confrontos entre os agentes e os traficantes na fronteira mexicana, no terço final da trama. Mas fora isso, não há nada mais marcante em sua condução. Até mesmo as cenas mais emotivas são tratadas de maneira absolutamente tradicional, recomendada apenas para quem não se importa em ver mais do mesmo.

O verdadeiro calcanhar de Aquiles do filme, na verdade, está no roteiro de Taylor Sheridan, também responsável pelo texto da primeira parte. O autor, que também se destacou como diretor em “Terra Selvagem”, parece ter perdido o foco da história que queria contar e, assim, descarta sem a menor cerimônia situações, elementos e personagens com um desenvolvimento bastante superficial, pulando para o que causa uma certa frustração. Além disso, Sheridan se vale de um artifício tolo e desnecessário para justificar a decisão de Alejandro para voltar à ação, até porque o motivo já tinha sido resolvido no primeiro filme.

Para piorar, não há aqui praticamente nenhuma ambiguidade entre os protagonistas, algo que tornou o primeiro “Sicario” bem mais interessante. Assim, a discussão levantada anteriormente de que, numa guerra, nada é preto e branco, mas sim cinza, é deixada de lado em prol do cinema mais espetaculoso, com muitos tiros e explosões. Nem mesmo os diálogos, um dos pontos fortes dos roteiros de Sheridan (especialmente no ótimo “A Qualquer Custo”), chegam a chamar a atenção.

Vale destacar também que a fotografia de Darius Wolski, habitual colaborador de Ridley Scott, é bem realizada, principalmente ao dar um tom sem vida para as cenas ambientadas na fronteira entre os Estados Unidos e o México, para dar um ar de desolação para a área, além de realizar alguns enquadramentos interessantes nas cenas de ação. Mas ainda assim, o trabalho de luz e sombra e as tomadas aéreas de Roger Deakins (pelo qual foi indicado ao Oscar em 2016) ainda são insuperáveis e sua ausência aqui pode deixar os admiradores do primeiro filme com uma pontinha de frustração.

De volta a um de seus papéis mais marcantes dos últimos anos, Benicio Del Toro volta a chamar a atenção como Alejandro, com sua frieza para executar seus inimigos e seu olhar, paradoxalmente, perdido e penetrante. Aqui, ele teve espaço para trabalhar mais as questões emotivas do personagem e ele se sai bem. Josh Brolin, que está num ano abençoado após duas ótimas atuações nos blockbusters “Vingadores: Guerra Infinita” e “Deadpool 2”, aqui não está tão marcante quanto no primeiro “Sicario”, em parte pelos problemas do roteiro, mas ainda assim marca presença como Matt Graver.

Quem se destaca de verdade no elenco é a jovem Isabella Moner, que foi vista anteriormente em “Transformers: O Último Cavaleiro” e vai estrelar a versão live action do popular programa infantil “Dora, a Aventureira”. A atriz torna convincente a transição de sua personagem, de garota mimada e cheia de marra a uma vítima que passa a perceber a realidade que acontece ao seu redor após seu sequestro. Ela também mostra uma boa relação com Del Toro nas cenas que os dois dividem e que poderiam ser melhores se o roteiro ajudasse. É uma pena, no entanto, que bons atores como Catherine Keener e Matthew Modine sejam quase figurações de luxo no filme.

Sem Emily Blunt (que pode voltar na terceira parte, segundo declarações feitas pelos produtores), “Sicario: Dia do Soldado” é, no fim das contas, uma sequência que ninguém estava ansioso para ver, embora seja um filme policial bem construído tecnicamente, mas que fica anos luz de distância da obra original. Talvez seja necessário que Villenueve, ou outro diretor do mesmo quilate, assuma o próximo capítulo para colocar as coisas no lugar e a história voltar a ser relevante ao mostrar o quão cruel pode ser a natureza humana, como tem acontecido atualmente nos Estados Unidos em relação aos imigrantes ilegais. O jeito é aguardar o que vem por aí. No cinema e na vida real.

Filme: Sicario: Dia do Soldado (Sicario: Day of the Soldado)
Direção: Stefano Sollima
Elenco: Benicio Del Toro, Josh Brolin, Isabella Moner, Catherine Keener, Jeffrey Donovan, Matthew Modine
Gênero: Policial/Drama/Suspense
País: EUA
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Sony Pictures
Duração: 2h 02min
Classificação: 16 anos

Publicado por Célio Silva

Sou um cara que, desde que viu Flash Gordon na telona, com 7 anos de idade, sempre foi apaixonado por cinema. Também curto muito TV, música e livros. Mas é na sétima arte que sinto o maior prazer.