Supergirl Joga Seguro Demais e Esquece a Essência dos Quadrinhos
Quando Kara Zor-El apareceu bêbada na Fortaleza da Solidão no final de Superman, foi um divertido teaser do que seria o filme solo da super-heroína, programado para ser o passo seguinte do novo Universo DC no cinema. Supergirl chega aos cinemas um ano depois do bem-sucedido longa de James Gunn protagonizado pelo Filho de Krypton, dando a chance de sua prima tirar o gosto amargo que ficou daquela amaldiçoada produção de 1984, que nada mais era do que um belo cash grab da Warner para faturar em cima das produções estreladas por Christopher Reeve. A personagem ganhou outras versões: a mais famosa e recente na CW, com Melissa Benoist, e até uma participação no cinema na pele de Sasha Calle, em The Flash.
O longa adapta para os cinemas a aclamada HQ Supergirl: Mulher do Amanhã, de Tom King. A trama acompanha Kara Zor-El (Millie Alcock), que ainda carrega os traumas de ter testemunhado a destruição de Krypton durante a adolescência. Sua jornada toma um rumo inesperado quando ela cruza o caminho de Ruthye Marie Knoll (Eve Ridley), uma jovem alienígena determinada a vingar a morte do pai. Embora inicialmente relutante em participar da missão, Kara acaba sendo arrastada para uma perseguição intergaláctica contra o mercenário Krem (Matthias Schoenaerts), enfrentando desafios que colocam seus poderes à prova e a levam a encarar perigos ao lado de Krypto, o supercão, enquanto tenta escapar do temido caçador de recompensas Lobo (Jason Momoa).

A escolha da matéria-prima não poderia ser melhor. Mulher do Amanhã é cinematográfica o bastante para render um longa. Não adaptar literalmente é o menor dos problemas aqui; o grande pecado foi falhar na essência. Supergirl parece querer se conectar mais a produções da rival Marvel, sobretudo Guardiões da Galáxia, dirigido por James Gunn, o cabeça do DCU. Se a trama de Star-Lord e Rocket Raccoon, que não era exatamente sobre super-heróis tradicionais, reciclava elementos de sci-fi e space opera, o filme da prima do Superman pretende fazer o mesmo. Só que, menos esperto do que Gunn, Craig Gillespie acaba criando um produto nada original.

Supergirl tem todo o revestimento de um spin-off de Superman. E justamente por isso a produção poderia ser mais ousada, já que não pesa sobre seus ombros a responsabilidade de satisfazer as expectativas de todos os públicos e fazer rios de dinheiro na bilheteria. No entanto, o que o roteiro de Anna Nogueira, americana filha de pai brasileiro, fez foi justamente apostar no mais seguro, sem propor nenhum novo conceito ou surpresa que projete algo para o futuro neste novo DCU. Por mais que alguns fãs tenham ficado insatisfeitos com mexidas no cânone, o reboot do Homem de Aço procurou trazer alguma novidade.
Gillespie conduz o longa com uma incômoda retidão que tenta disfarçar com uma edição ágil e uma trilha sonora descolada. Em Cruella, ele se valeu do mesmo truque e parece ter convencido muitos. Aqui não funciona. Fica clara a falta de repertório e de intimidade com os quadrinhos e com o próprio cinema de super-herói. Daí, o espectador mais conectado à obra original percebe isso imediatamente e desengaja.

Não é exagero dizer que a escolha de Millie Alcock para o papel principal é o maior acerto (na verdade, um dos poucos). Ela soube compor a heroína com carisma, forte presença e bom timing para o humor quando exigido, tudo isso a despeito do roteiro que falha na coerência em vários momentos. Eve Ridley, que interpreta Ruthye, também realiza um bom trabalho, enquanto Matthias Schoenaerts acaba prejudicado pelo script e pelo próprio conceito do vilão — diferente da versão dos quadrinhos —, que está cercado de clichês. Já o Lobo de Jason Momoa é apresentado com pompa, mas pouco faz.

Supergirl poderia, sim, ser um filme muito superior se houvesse coragem. Em um momento em que o cinema de super-herói clama por novas ideias, um longa que apenas repete uma fórmula, sem nenhuma inventividade, é como se estivesse pedindo ao público que não aderisse. Se o intuito é obter o mesmo sucesso que o MCU teve nos anos 2010, é necessário tratar com capricho até mesmo os projetos menores.








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