Uma Infância Alemã: a perda da inocência quando acaba a guerra

O que é viver uma infância em tempos de guerra? É se acostumar com o toque de recolher e os alertas de bombardeio. É se esconder sem ser de brincadeira. É se conformar com o racionamento de alimentos e outros mantimentos. É um dia olhar para trás e se espantar com o fato de que…


O que é viver uma infância em tempos de guerra? É se acostumar com o toque de recolher e os alertas de bombardeio. É se esconder sem ser de brincadeira. É se conformar com o racionamento de alimentos e outros mantimentos. É um dia olhar para trás e se espantar com o fato de que você viveu aquilo sem entender a magnitude do evento. Eu não cresci em tempos de guerra, mas através do cinema pude vivenciar um pouco desse desafio. Fosse com “O Menino do Pijama Listrado” ou Anne Frank, lá estava eu, espectadora, experimentando aquilo pelo que os personagens passavam. E mais uma vez pude experimentar essa imersão com “Uma Infância Alemã”.

Na cena inicial, dois meninos estão plantando batatas e ao lado há dois adultos arando a terra com a ajuda de um cavalo. As quatro pessoas param para ver uma frota de aviões passar por cima deles, não sem antes atirar bombas no mar que ficou para trás. Eles, contudo, não são uma família. A mulher, Tessa, emprega os dois garotos, Hermann (Kian Köppke) e Nanning (Jasper Billerbeck), em sua plantação de batatas. Nanning é filho de um erudito escritor de livros sobre eugenia que atualmente está no front e cuja esposa, Hille (Laura Tonke) está grávida do quarto filho.

Nanning (Jasper Billerbeck), Herrmann (Kian Köppke)

Na escola, Nanning experimenta um pouco de preconceito por não ser da ilha de Amrum, mas sim de Hamburgo, e é colocado na mesma categoria das crianças refugiadas, que chegaram de outras regiões da Alemanha e até de outros países. Sua mãe diz que “não importa de onde você é, mas sim de quem você descende”. Ela estava tão perto de estar certa! É uma pena que não seja essa curiosa e paradoxal faceta da experiência de guerra o foco do filme.

No meio da noite, Nanning sai de casa e vê uma coruja. Aprendi com outro filme de guerra, “Eu Acuso!”, de 1919, que avistar uma coruja é sinal de mau agouro. Na praia, ele encontra um cadáver. Longe do front, sua jornada será menos perigosa, mas não menos desafiadora: tudo o que ele quer é conseguir pão branco com manteiga e mel para satisfazer um desejo da mãe. O problema é que todos os ingredientes ou estão racionados ou são quase impossíveis de conseguir.

Nanning (Jasper Billerbeck)

Nanning empresta a Hermann o livro “Moby Dick”. Ao começar a leitura ao lado de seu avô, Hermann conta ao amigo que o avô disse que o Capitão Ahab é como Hitler, e seu navio Pequod é como a Alemanha: Pequod está afundando por causa de Ahab. Um comentário assim podia colocar muita gente em apuros naqueles tempos, mas foi sem dúvida uma comparação certeira.

O título original do filme é “Amrum”, nome da ilha baleeira do Mar do Norte onde se passa a história. Coberta de dunas, é refúgio de alguns animais que Nanning mata ou ajuda a matar, como a foca e o coelho, num paralelo com a violência da guerra, que ainda não havia tocado a ilha. Na época em que se passa o filme, a ilha tinha pouco mais de mil habitantes.

No pequeno papel de Tessa temos a talentosa Diane Kruger, com bem-sucedida carreira internacional. Ela já trabalhou com o diretor Fatih Akin no excelente “Em Pedaços” (2017), pelo qual ganhou o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes. Akin é um diretor turco-alemão que fez seu primeiro filme aos 25 anos, em 1998, e vem colecionando prêmios e sucessos de público e crítica desde então.

Nanning (Jasper Billerbeck), Herrmann (Kian Köppke)

Por ser um membro da Juventude Hitlerista nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, Nanning acordará para a vida e perceberá que seus pais fizeram e fazem coisas horríveis. Seu choro, condenado pela mãe, é de decepção. Seu amadurecimento, marcado pela perda da inocência.

A história se baseia na infância do ator, diretor e co-roteirista Hark Bohm, falecido em novembro de 2025. Fatih Akin fala, sobre sua abordagem – que nós também precisamos ter ao enfrentar o filme – que “sou responsável por tudo que os humanos fazem com outros humanos”. A herança nazista é alemã, mas também universal, da espécie humana como um todo, que deixou o mal por tanto tempo triunfar. E que não pode de maneira nenhuma deixá-lo voltar.

Uma Infância Alemã

Uma Infância Alemã
7 10 0 1
Nota: 7/10 – Ótimo
Nota: 7/10 – Ótimo
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