em

O arco da loucura

A esquizofrenia é o tema de “Arco de virar réu” (Editora Tordesilhas, 2016), o primeiro romance de Antonio Cestaro. Para expor as características de uma doença mental tão delicada e complexa, o autor dilacera a escrita ao intercalar o fluxo contínuo da história com os delírios da enfermidade. A fórmula atinge o objetivo desejado. As ideias desconexas interferem na narrativa e criam um ruído de estranhamento que logo se tornam empatia, afinal nos imaginamos na postura de ter que lidar com um familiar na mesma condição.

No livro acompanhamos o narrador-protagonista, um historiador de sociedades indígenas, primogênito de pais separados, contando o processo de deterioração mental de seu irmão Pedro. Os primeiros sintomas aparecem no verão de 1973, após o enfermo ganhar da tia um “jogo de guerra”. O jogo torna-se uma obsessão, um universo paralelo onde Pedro busca organizar suas ideias que não tomam forma no mundo real. Junto com a decadência do irmão, acompanhamos o desmembramento da família (separação dos pais) com a inserção de um novo núcleo familiar, composto pelo primo Juca Bala e a tia Rosana.

A relação fraternal constrói um ciclo de sanidade-loucura onde pouco a pouco um alicia a outro. Por conta disso, o narrador experimenta sonhos que o levam aos rituais canibais dos tupinambás, à Índia, e à transformação dos soldados imaginados por Pedro em maus espíritos indígenas. Tais interferências criam uma escrita surrealista, prodigiosa em texturas, formas e reflexões.

ARCO_DE_VIRAR_REU_1455645176564035SK1455645176BCom os desvarios oníricos, observamos a piora da condição de Pedro e o surgimento de uma fissura que questiona as ações do narrador. O discurso principal, antes cuidadoso como o trabalho do historiador, passa a apresentar falhas que entram em conflito com o ponto de vista alheio. Com o choque, Cestaro fragiliza seu narrador, desacreditando-o, e, por efeito empático, tornando-o mais humano. A esquizofrenia ganha espaço ao fisgar o próprio contador da história.

Com linguagem vasta e precisa, “Arco de virar réu” desorienta e ao mesmo tempo guia o leitor, mantendo-o na tensão desejada do princípio ao fim. Isto só é possível devido ao notável domínio do autor na estrutura da história, respondendo nossas perguntas aos poucos e sugerindo interpretações que se por um lado podem nos desorientar, trabalham metalinguisticamente a função da esquizofrenia dentro da narrativa. Com êxito nas linhas e entrelinhas, é certamente um livro completo por ser incompleto. Afinal cabe sempre ao leitor a interpretação final.

Opiniões

Participe com sua opinião!

Carregando

0