Literatura

Clássico: O Presidente Negro, de Monteiro Lobato

“Desde já asseguro uma coisa: sairá novela única no gênero. Ninguém lhe dará nenhuma importância no momento, julgando-a pira obra der imaginação fantasiosa. Mas um dia a humanidade se assanhara diante das previsões do escritor, e os cientistas quebrarão a cabeça no estudo de um caso, único no mundo, de profecia integral e rigorosa ate nos mínios detalhes”.

Tal trecho da conversa ente os personagens Ayrton e Miss Jane figura como um exímio excerto que retrata metaforicamente a obra de Monteiro Lobato, O Presidente Negro – cara ao pré-modernismo brasileiro – publicada originalmente nos meados dos anos de 1820.

A narrativa conta a história de um comum homem médio o qual por meio de um acidente automobilístico encontra como socorro um cientista e sua filha, os quais vivem isolados em uma mansão. Tal homem da ciência é, então, o criador de uma máquina que revela, como que cinematograficamente, o tempo futuro, onde se entretém sua filha, Miss Jane, de observações a se deslumbrar com o que há de vir. O forasteiro, Ayrton, se apaixona pela filha do cientista, o professor Benson, desenvolvendo-se um núcleo de amor platônico.

Uma corrente ilustração da época para o livro de Lobato

Porém os meandros da história se concentram em uma tarefa: o desejo de Miss Jane, junto ao comprometimento de Ayrton, em compor uma obra literária sobre os “cortes” do futuro da humanidade. Ela narra suas lembranças do futuro, uma vez que o pai destruiu a maravilhosa maquina antes de falecer, enquanto ele houve atônito e curioso pelo porvir. Nisto encontramos Lobato com seu estilo fantasioso e imaginativo, porém rente à realidade, construindo as linhas mais interessantes desta obra de ficção comedida.

O drama do futuro para Monteiro reside na questão racial de princípios eugênicos, onde os Estados Unidos da America residem como o paraíso de ordem material e espiritual frente às outras nações, devido aos seus lemas de “eficiência” e de outro, politicamente, hoje, mais polêmico, o da “eugenia”. Um trazendo as bonanças econômicas, outro, elevando o nível sócio-intelectual da população, onde tais efeitos encontram proeminentes construções ideológicas para se justificar como grande opção humana.

O Presidente Negro gira em torna do impasse político entre a raça branca e negra, onde esta consegue eleger um presidente por sobre aquela, porém o orgulho branco, ferido, trava revanche sobre a histórica vingança negra, pois “- Acima da America está o sangue”, nas palavras do presidente branco, o personagem Kerlog.

Para construir sua obra, Monteiro Lobato se vale da cultura de sua época, dos cientificismos e nascer positivista do século XIX, criando na sociedade de 2228 as mesmas conjecturas de seu tempo, contudo elevadas as últimas consequências. O choque racial retratado, como também o seu “elvinismo” – um feminismo científico radical – são de muito contemporâneas problemáticas, ademais assessoradas por inventividades que, no século XXI, já nos são cotidianas.

Quanto à questão eugênica defendida pela obra e que encontra respaldo em fases da vida pessoal e conservadora do autor, O Presidente Negro se apresenta como material de estudos de uma época e seu contexto, que, contudo não exclui o proeminente talento de visão de Lobato. As implicações pessoais tornam a obra ainda mais realística e rica com seu impasse argumentativo.

Sacrificar o homem de Taubaté por implicações politicamente corretas e outros comodismos de julgamentos é evitar membros da história e suas consequências que geram debates amadurecedores.

Um interessante trecho da história revelam essas impressões contundentes à obra: “O sangue não raciocina, como os filósofos. O sangue sidera, qual raio… Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar…” – diálogo do presidente branco para Jim Roy, o eleito presidente negro.

Uma curiosidade é a manifestação do apreço do autor pela infância, pelas crianças. Nesta obra há trechos onde estas são valorizadas e consideradas peças chaves da sociedade futura – todavia um tanto eclipsados pelo impasse racial. O personagem criado, a Majestade Baby, é todo esse gosto do criador das aventuras de Narizinho, Pedrinho e Emilia.

Ainda mais, o livro destila outras características recorrentes de desafetos de Lobato, como uma antipatia por inovações artísticas modernas, mesmo ele sendo um adepto de melhorias do avanço humano no campo cultural dentro de suas concepções futurísticas. O trecho seguinte se refere ao futurismo: “–Isso. Teorias de repouso, com base num sutil malabarismo de lógica, que servem para romper o monotomo de certeza, de verdade, da coisa tida e havida como justa. O espírito humano nelas se recreia e se espoja, como se espoja na poeira o cavalo cansado,”. Lembremos-nos do crítico caso com Anita Malfatti. (do qual levanto questões como pessoalidades, ignorância e acida oposição).

Um fato recente e que sublima a percepção do livro foi a corrida eleitoral norte-americana de 2008 dentro do partido dos Democratas, entre um negro e uma mulher – Hillary Clinton -, onde ganho a preferência dos votos, Barack Obama, disputou contra um candidato negro a cadeira presidencial  juntamente com um branco de partidarismo conservador – John McCain. O fim da realidade não correspondeu à ficção. Curiosamente, Obama foi o 44º presidente americano. Jim Roy foi o pretenso 88º.

O livro reside em tempos de uma nascente literatura de postura crítica contra a ornamentação formal parnasiana, plantando claramente sementes para a geração de 22.  Que seja Lobato “pré-conceitual” em sua narrativa, ele foi um lado de seu tempo.

Ainda mais: é uma narrativa lúcida e contemporânea sobre as políticas sociais dos séculos passados e que refletem nas ideias de hoje, com um desfecho profético, todavia sem excluir-se como um romance de amor entre dois personagens tão opostos e um drama racial.

4 estrelas

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