Entrevista com a escritora Carola Saavedra

Ambrosia Entrevista com a escritora Carola Saavedra

Carola Saavedra é autora dos romances Toda terça 9 (2007) Flores Azuis ( 2008 prêmio melhor romance pela APCA finalistas dos prêmios  São Paulo  de literatura e Jabuti) Paisagem com Dromedário (2010 prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor, finalistas do prêmio São Paulo de literatura e Jabuti) e o Inventário das coisas ausentes ( 2014), todos publicados pela Companhia das letras. Seus livros foram traduzidos para o inglês, francês, o espanhol e o alemão. Ela está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta. A Revista Ambrosia conversou com a escritora. Confira a entrevista abaixo:
Ambrosia: Você usa muito bem as lacunas de cada parte do livro os espaços dos subtextos para desenvolver as partes simbióticas do livro. Ana e Maike. Como foi pensar esta relação musical quase uma relação (de passos de dança) entre os eventos da vida de suas personagens?
Carola Saavedra: Num romance aquilo que você silencia é tão importante quanto o que você narra, às vezes até mais. As lacunas, elipses. De certa forma a escrita nada mais é do que a tentativa de se aproximar desse núcleo inatingível da vida, você fica traçando círculos em volta. No caso específico do livro, a ideia é que existem heranças, palavras, às vezes silêncios, que são passados de mãe para filha, “verdades” que a mulher (e também o homem, claro) carrega, mas que não são realmente dela. Assim, o conceito da tábula rasa é uma ilusão, ninguém chega “vazio” ao mundo, a criança quando nasce já carrega toda uma história, a história genética de seus ancestrais, mas também a história psíquica e social, e carrega até o desejo que a mãe (e o pai) projetou nela, ou a falta de desejo…
Se eu for procurar uma única trama que liga as mulheres do meu romance (mãe, filha, avó, bisavó), essa trama, essa herança, seria o abandono, a solidão, todas elas, de uma forma ou de outra, carregam a marca do abandono, a avó que ainda muito jovem é mandada pela mãe para trabalhar como doméstica no Rio de Janeiro, a bisavó indígena que se vê obrigada a abandonar “a sua terra natal”, Anna, que se sente abandonada pela mãe, e Maike, que ainda bebê, é abandonada num parque, mas não sabe disso (não de forma consciente). Nesse sentido, o abandono é o fio que eu uso para alinhavar essas histórias. E é também uma maldição que se repete e se repete, até que alguém se apodere dela e a reescreva.
A: As dicotomias sociais – conflito de classes, relações familiares, alteridades entre homens e mulheres – são olhadas por você de forma muito nuançada. Com foi refletir sobre os papéis sociais que se estratificam numa sociedade tão desigual e tão punitiva?
Carola: Um bom romance nunca é resultado apenas de preocupações intelectuais do autor, ele é resultado de um atravessamento, o autor deve estar na pele dos personagens, nunca do lado de fora. Por isso falar de questões sociais passa sempre pelo pessoal, para mim o caminho foi esse, eu falo daquilo que me atinge, daquilo que me atravessa, que me faz sofrer, quando eu escrevo eu não sou uma autora falando sobre a vida da empregada, eu sou aquela personagem porque a carrego no corpo, porque a minha avó foi ela, porque a minha tataravó foi ela, porque todo um continente foi ela, para mim é a única forma verdadeira de narrar.
A: Há um interessante trabalho sobre o efeito do tempo, como ele rege os destinos como ele pensando na lei das ações humanas, se  parece um pouco um Deus ex machina, controlando mimeticamente os atores e seus destinos. Queria que você falasse um pouco sobre isso, o papel do tempo.
Carola: Essa pergunta toca no que para mim é o motor do livro, quase um personagem à parte: o tempo. O que rege os personagens não é o tempo linear, mas o tempo circular, tanto que no final do romance, a avó diz para a neta “é melhor esperar aqui, como tudo anda em círculos, mais cedo ou mais tarde voltaremos ao ponto de partida”. O tempo cíclico, aliás, é muito comum para a maioria dos povos à margem da “civilização ocidental”, especialmente culturas indígenas latino-americanas. E isso bate de frente com a ideia do romance de formação, gênero que eu uso como base para o livro.
O romance de formação parte de um princípio positivista, de que caminhamos para frente, para algo melhor, é a ideia de progresso, toda a nossa cultura é baseada nisso (ruptura e progresso). Mas a verdade é que isso nada mais é do que uma ilusão, basta olhar para a história do mundo, civilizações surgem e desaparecem, surgem e desaparecem, assim como o próprio ser humano, assim como surgiu, também desaparecerá. Ou seja, nossa civilização nada mais é do que uma intensa luta contra a morte, tentamos a todo custo extirpá-la de nossas vidas, e meu livro é justamente o contrário disso, fala do tempo circular, da natureza, e de personagens que caminham não em direção ao progresso, mas em direção à morte e sua aceitação. O que não é algo negativo, ao contrário, a aceitação da morte, não significa que não haja salvação em vida, muitas vezes há, salvação pela arte, pelo afeto, pela palavra. Salvação, e um dia, a morte.
A: As trocas que você fazia nos seus outros romances por vias epistolares agora estão organicamente matizadas dentro da própria narrativa. O corpo é um organismo narrativo para você? Como você vê sua escritura?
Carola: Sim, com toda a certeza, o corpo é linguagem, e na maioria das vezes, o sintoma é a linguagem do corpo. Te dou um exemplo bem simples, mas muito comum, alguém se sente sobrecarregado de trabalho, ou sobrecarregado com uma situação familiar complicada e de repente passa a sentir terríveis dores nas costas, o que o corpo diz com isso?
Provavelmente que ele está carregando um fardo pesado demais. O corpo, assim como a literatura, fala através de metáforas (metáforas e metonímias, diria Lacan). É claro que não toda dor nas costas significa isso, assim como nos sonhos, não há significados fixos, se eu sonho com uma tempestade, isso significa algo para mim que provavelmente nada tem a ver com fulano, que também sonhou com uma tempestade. Então eu diria que o inconsciente fala através do corpo, dos sonhos, da literatura.
Pensando o caso específico da literatura, o texto literário é uma espécie de sonho, um sonho do qual temos certo controle, mas não totalmente, o mistério do texto literário (e também seu fascínio) é esse espaço de descontrole, aquilo que escrevemos sem saber que escrevemos, aquilo que os ultrapassa. Lembro das palavras de Antonio Candido que diz “a literatura é o sonho acordado das civilizações”, de certa forma é isso, a literatura é a mensagem na garrafa, para todos e para ninguém.
A: Há um viés fantástico em determinados momentos da narrativa. Como você trabalhou-os dentro do contexto do romance?
Carola: Aconteceu naturalmente. O livro começa num tom realista, e isso reflete o meu próprio processo de escrita, comecei a escrever o livro com esse objetivo, mas quando cheguei na cena em que Anna abandona o bebê num parque percebi que aquilo era de um horror tão grande, de uma dor tão grande, para a personagem, mas também para mim, que o realismo não daria conta, eu precisava narrar aquela cena, mas não sabia como. Até que um dia, veio a capivara, e eu pensei, claro é isso, como não pensei nisso antes! Demorei algumas semanas até conseguir fazer a capivara falar, mas quando ela finalmente falou, foi tudo muito natural. E isso me fez repensar o tom do livro, depois da capivara, eu não podia simplesmente continuar escrevendo como se nada tivesse acontecido. A partir daquele momento eu compreendi que o livro não seria o que eu tinha planejado, mas também não tinha a menor ideia do que se tornaria o romance, eu simplesmente me deixei levar pelo meu não-saber.

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