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Entrevista com a escritora Anna Monteiro

Anna Monteiro é carioca, jornalista, formada pela Escola de Comunicação da UFRJ, com especialização em produção de TV & Cinema pela Escola Superior de Propaganda e Marketing ESPM. Trabalha com comunicação para o Terceiro Setor. Participou da coletânea de contos 14 novos autores brasileiros, organizado por Adriana Lisboa, pela Editora Mombak. Granulações é seu romance de estreia, pela Editora Reformatório.
1-) Teu livro é um achado para tempos de antagonismos e bolhas tanto na rede como na vida social, pois você sai de uma posição que se adota também na literatura de uma ficção de confrontos, de rachas, para narrar a vida de duas pessoas envolvidas numa relação afetiva que são tão de carne e osso, tão cheia de singularidades e de alto relevo saindo da planura da página para ter um vida muito real. Como chegou a esta experiência de narrar desta forma? 
Obrigada por considerar Granulações um achado nesses tempos e me convidar para essa conversa. Quando pensei na história de um casal que se conhece, se apaixona e se separa, escolhi contá-la por meio do ponto de vista dele, Pedro, e dela, Nina. E queria narrar a história em primeira pessoa, alternando as vozes deles ao longo dos capítulos. Há muito amadurecia a ideia desse tipo de narrativa e fui testando, em determinado ponto achei que funcionava e segui. Tinha que escolher elementos que construíssem a voz dele e a voz dela e que as diferenciasse, que o leitor entendesse que mudou a voz, mas que não estranhasse essa mudança.
Acho que a vida de todos nós é banal, precisamos dos silêncios, de espaço, de nos ouvirmos, estarmos em contato com nós mesmos, e atualmente parece que o que importa é a vida do outro, há uma invasão permanente do nosso espaço por estarmos hiperconectados.
Eu quis contar a história das pessoas comuns, estamos por aí, com as pequenas coisas que nos acontecem, vivemos o dia a dia normal, nada espetacular. Queria que a vida dos meus personagens fosse assim, cheia dessa normalidade, que a vida deles acontecesse enquanto fosse intercalada por momentos de destaque e que assim fosse narrada a história.
2-) Acho que só histórias cheias de carnaduras tem efeito verossimilhante no cinema, pois o cinema de certa forma espelha a vida na sua esfera microcotidiana, os atos banais, os ciúmes, os desvarios loucos de homens perdidos, a câmera do cinema parece gostar de uma história bem contada com todos estes pormenores que causam fácil identificação com quem assiste. Eu diria que você tem o olhar de um diretor sobre estas questões de  enredo. Como você pensa seu romance com esta amplitude ao cerne da raiz cinematográfica? 
Adoro cinema, adoro observar o movimento da câmera, o enquadramento e, principalmente, o roteiro. Me preocupei muito com a verossimilhança dos personagens e das situações, em levar a história até o fim passando  ao leitor uma identificação com situações que eles poderiam viver. Um professor de roteiro uma vez me disse, e eu guardei para sempre, que as histórias devem ser simples,  os personagens é que precisam ser complexos. Tentei me ater a isso.
Gosto muito de descrições que levam o leitor a imaginar a cena que está lendo, que o faz criar o ambiente da história. Observo o ritmo dos parágrafos, das palavras, o que está em jogo naquela cena que eu estou desenvolvendo, até mesmo elementos que não vão aparecer na escrita, mas estão lá na cena.
E a narrativa longa permite isso, dá uma liberdade parecida com a de uma câmera a passear pelo cenário, permite closes e planos mais amplos. Trabalhei muito em cima dessa similaridade, desse complemento, entre o cinema e a literatura.
Entrevista com a escritora Anna Monteiro | Entrevistas | Revista Ambrosia
3-) Seria fácil explicar porque Pedro é assim, cair em esquematismos de perfis dando alguma explicação psicológica, até pela fala da Nina, que claro envolvida  com ele tenta para ela própria entender como Pedro é. Sua escolha foi muita mais sobre enfatizar a narração (o texto) do que construir um perfil denso de dois personagens. Talvez aconteça por que seu texto como no teatro alavanca os personagens. Como você pensou Pedro e Nina dentro da história que queria para eles? 
Não gosto de rótulos e estereótipos, de enquadrar pessoas em determinado pré-conceito, tão comuns atualmente na vida real, e também não gosto nada de personagens moralistas ou que trazem uma moral da história. Prefiro que o leitor chegue à própria conclusão por meio da leitura e de sua experiência de vida, porque a leitura nunca é só a leitura, é o olhar que o leitor também tem da vida, são várias leituras, infinitas leituras. E acho que o leitor também prefere, acho que quando a gente começa a ler um livro quer ser conduzido para a história, não quer que o autor fique informando “olha, o personagem é assim ou assado”.  A história deve acontecer e ser narrada naturalmente.
Preocupei-me com que eles tivessem várias facetas, famílias, amigos, amores, afetos, dores, humores peculiares. Construí um Pedro e uma Nina para mim antes de tudo, com uma vida pregressa. Eu precisava entender quem eram essas pessoas, como se comportavam em diversas situações, para tentar fazê-los factíveis, verossimilhantes. Parte deles está no livro, mas outra parte não aparece, era para  mim mesma, para eu saber quem são, qual era o lugar deles no mundo. Acho que a partir daí eu comecei a acreditar na existência de Pedro e Nina e talvez seja isso que os torne de carne e osso, como você disse, com semelhanças com  pessoas conhecidas, pessoas comuns.
4-) Há um evidente conflito de classes entre Pedro e Nina, ambos tem visões e ações pelo entorno muito diferentes, mas há alguma química forte entre eles passando pelo  desejo sexual, pela compleição corporal de um para o outro. Eu diria que os diálogos seus recheiam estas alteridades entre os dois; a forma do discurso de um e de outro colocados na boca de ambos dão um toque de realismo perfeito ao relacionamento. Queria que você falasse um pouco disso?   
Os relacionamentos são quase sempre imperfeitos, buscamos a perfeição, nos enganamos tentando mudar o outro e as pessoas não mudam, mas o bacana é quando aprendemos a conviver com o diferente, passamos a nos complementar das diferenças de alguma forma. Imagina todo mundo igual, que chato?
Pensei em Pedro e Nina como personagens opostos entre si, mas nunca como antagonistas, e que se complementam. Não queria confronto entre eles no sentido clássico, formal, de um ser o protagonista e o outro o antagonista da história. O conflito teria de ser outro, ser o desgaste das relações, a paixão que acaba. Há um momento em que o amor acaba, que o amor muda o sentido da relação e não é possível continuar juntos. Queria escrever sobre isso.
Embora venham da classe média, com bom nível cultural, com a mesma profissão até, eles têm formas muito diferentes de ver o mundo e suas histórias de vida parecem muito distintas. Acho que cada um de nós é assim, múltiplo, e em alguns momentos um lado predomina. Nos meus  personagens, há uma oposição na forma de encarar a vida, ao mesmo tempo em que há momentos em que eles têm uma quase simbiose, o discurso deles se encaixa e o Pedro parece a Nina, a Nina parece o Pedro. Como os casais são depois de um tempo maior de convivência, são quase uma só pessoa, embora com todas as divergências individuais.
E, afinal, Granulações é uma história de amor, a química entre eles era fundamental, eles se adoram, a ligação entre eles é grande, o sexo funciona bem. Mas há essas outras questões, nunca é tão simples. Então, foi assim que pensei em apresentá-los, com essa multiplicidade de sentimentos e visões de mundo. Espero ter conseguido.

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