“A arte existe porque a vida não basta”. Essa sentença é uma das mais emblemáticas e pertinentes proferidas por Ferreira Gullar, falecido no último domingo (4 de dezembro) aos 86 anos. Enquanto o país ainda se comovia pelo acidente aéreo que matou quase todo o time da Chapecoense, também perdíamos um dos nossos maiores intelectuais ainda vivos.

Aos 80 anos foi indagado pelo G1 sobre sua atividade como crítico de arte. Gullar disse que, antes de pensar em ser poeta, queria ser pintor. “Depois a poesia tomou conta, essas coisas a gente não governa. Mas continuo pintando e pensando sobre artes plásticas até hoje.”

Sua contribuição para a poesia e o pensamento crítico é insofismável. Quando publicou seu primeiro livro, “Luta Corporal”, de 1954, já tinha textos publicados em jornais do Rio de Janeiro e São Luís. As experimentações gráficas da obra abriram caminho para o movimento concretista de São Paulo na segunda metade da década de 1950. Movimento esse que era liderado pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari.

“João Boa-Morte, cabra marcado para morrer”, de 1964, traz poemas em forma de cordel que traduzem de forma abrangente a luta política. Como acontecia com a grande maioria dos pensadores durante o período da ditedura, Gullar foi perseguido e exilado. Do exílio escreveu “Poema Sujo”, de 1976, que chegou ao Brasil contrabandeado por Vinícius de Moraes. Era uma fita cassete gravada em Buenos Aires com a leitura do poema. Foi lançado no Brasil sem sua presença e se tornou sua obra mais famosa.

Sua verve de crítico de arte se mostra na coletânea de ensaios “Argumentação contra a morte da arte”, de 1993. Ali é discutido o papel da arte contemporânea e sua perigosa aproximação com o comercial.

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Na música também teve destaque. Em 1975 colocou versos na melodia de O trenzinho do caipira de Villa-Lobos. Quatro anos depois foi parceiro de Milton Nascimento em Bela bela. Pouquíssima gente sabe, mas foi Gullar que adaptou a letra de ‘Burbujas de Amor’ do dominicano Juan Luís Guerra para o português. O resultado foi o sucesso ‘Borbulhas de Amor’, lançada por Fagner em 1991. A mais emblemática contribuição de Gullar na MPB foi ‘Onde Andarás?’, poema musicado por Caetano Veloso em 1968 que também ganhou versões de artistas como Maria Bethânia e Marisa Monte. Outro nome que formou parceria com Gullar foi Paulinho da Viola.

No cinema também marcou presença fosse em filmes em sua homenagem , fosse como narrador como em Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho. Sua voz também pontua o documentário Imagens do Inconsciente de Leon Hirzman. O filme mostra o trabalho de artes plásticas realizado no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro sob supervisão da doutora Nise da Silveira. O tema virou uma cinebiografia esse ano, estrelada por Glória Pires. Com a partida do poeta maranhense o pensamento e a arte no Brasil se quedam indiscutivelmente um pouco menos ricos.

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