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O Jovem Sherlock Holmes: Nuvem da Morte

As adaptações de histórias clássicas são comuns na literatura dos dias de hoje, são conjecturadas sequências, imitações e paródias das mais diversas para um público ávido pelo entretenimento da leitura. Um dos personagens fictícios mais prolíficos nesse sentido é com certeza o célebre Sherlock Holmes, criação máxima do inglês Sir Arthur Conan Doyle. O número de histórias escritas por outros autores sobre Sherlock muito supera as escritas pelo autor de Um estudo em vermelho (1891).

Parece que tudo já foi visitado: biografias do personagem, aventuras não contadas por Doyle, narrativas esquecidas, silenciadas, versões contadas por outros personagens como o Sr. Watson ou o arqui-inimigo do detetive, o professor James Moriarty, outras narram sua velhice, suas viagens ao futuro e ao passado, além, daquelas supostamente vividas na juventude. Este é o caso da série O jovem Sherlock Holmes (The Young Sherlock Holmes), de Andrew Lane, cujo primeiro volume, Nuvem da morte (Death cloud, tradução de Débora Isidoro), foi lançado recentemente pela Intrínseca.

O autor não é o primeiro a tratar de um Holmes adolescente. Podemos rememorar nossa adolescência daquele filme de Sessão da Tarde, O enigma da pirâmide (1985) ou ainda de um seriado da BBC, Young Sherlock, The Mistery of the Manor House (1982). Também a série de Shane Peacock, The boy Sherlock Holmes, que trata do personagem quando garoto, é uma interessante variante. Mas no caso da versão de Lane, há um diferencial, recebeu a aprovação dos representantes da Conan Doyle Estate Ltd e dos parentes vivos do autor, conferindo à obra e sua continuidade certa legitimidade.

A narrativa se inicia no ano de 1868, quando seu pai é designado para ir à Índia, e Sherlock é obrigado a passar as férias escolares na mansão de seus tios, em uma cidade distante. É nesse local que o jovem, que tem dificuldades para se relacionar com garotas e fazer amigos enfrenta sua primeira missão: desvendar duas mortes misteriosas.

Para uma série infanto-juvenil ao descrever o ambiente lúgubre e a solidão que aos 14 anos sofria, o autor aborda um lado desconhecido do famoso investigador que atrairá com certeza os leitores adultos. Colocando o protagonista em confronto com sua origem, pertencente à fidalguia rural vitoriana, o Sherlock de Lane vê a estrutura social em monólogos críticos bem significantes. Outro ponto tratado é o conflito indireto com seus professores e colegas de escola, ele vive num eterno malabarismo entre a tolerância e objeção ética como estudante. Posteriormente Andrew Lane se detém com detalhes a ambientes mais sórdidos e violentos, algo que Doyle jamais fez, pois não tinha necessidade de explicar essa realidade a seus leitores, e nesse caso, há certo valor pedagógico, pelas fontes literárias e científicas inseridas. Cenas de ação e de briga dirigem a narrativa a um clímax bem novelesco com elementos steampunk, no caso o mistério local progredirá, nas sequências, em um plano megalomaníaco que nem o investigador juvenil imagina.

Mas o que faz desse Holmes diferente de tantos outros jovens investigadores? Lane é um bom conhecedor do Cânone de Holmes e trunfa o texto com referências que não escaparão dos aficionados. Uma galeria de personagens completa as habilidades que Holmes não tinha ainda, como Matthew Arnatt, um garoto sem família que vive viajando pelos canais ingleses, lhe ensina um pouco do submundo ou o seu tutor Amyus Crowe, lhe passa os princípios do raciocínio lógico e do processo dedutivo.

Outro ponto que alcança o caráter holmesiana está no título do volume, Nuvem da morte, mesmo com as soluções prosaicas, a explicação da verdadeira natureza da nuvem é plausível e satisfatória e tem a peculiaridade das melhores histórias do investigador londrino. Os títulos seguintes seguem essa mesma inclinação, o segundo, O parasita vermelho, desenvolve um dos casos mencionados pelo personagem Watson, e o terceiro, Gelo negro, explicando outro caso, que envolve seu irmão.

Uma boa pedida para quem já espera o segundo filme do Sherlock com Robert Downney Jr., Sherlock Holmes: A Game of Shadows.

 [xrr rating=4/5]

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