Literatura

Quinzena Macabra: O Vampiro Antes de Drácula

o vampiro antes de dráculaCrepúsculo, True Blood, Vampire Diaries. Antes disso, Entrevista com o Vampiro. Bem antes disso, Drácula. Os vampiros são moda, caem no esquecimento e ressurgem mais fortes e diferentes a cada ida e vinda. De Drácula aos romances vampíricos para adolescentes houve imensas mudanças. Evolução (ou não) do mito vampiresco, suas origens podem acabar se perdendo. Por que então não abandonar um pouco as modinhas e voltar para as suas origens?

Martha Argel, doutora em ecologia, e o biólogo Humberto Moura Neto fazem isso na antologia O Vampiro Antes de Drácula, da Editora Aleph. Adoradores dos vampiros, os organizadores se aprofundam na busca da sua origem. E também desfazem um mito: o de que Drácula, de Bram Stoker, foi o primeiro vampiro. A figura do morto-vivo que se alimenta de sangue surgiu bem antes de Drácula, e isso é desvendado por Martha e Humberto, que mostram como o vampiro passou do folclore à literatura, de monstro repugnante a membro influente da nobreza.

Como a própria nomenclatura diz, O Vampiro Antes de Drácula reúne contos publicados no século XIX dos autores Edgar Allan Poe, John Polidori, Lord Byron, Alexandre Dumas (pai), Bram Stoker, Alexei Tolstoi, Anne Crawford, Arthur Quiller-Couch, Phill Robinson e Conde de Stenbock. Assim, nos é apresentado as várias faces que esses grandes escritores deram aos vampiros, construindo o mito da forma como o conhecemos hoje.

Nas palavras dos organizadores da antologia, o que marcou a entrada do vampiro no gosto popular foi o conto O Vampiro, de John Polidori. Na época creditado a Lord Byron, seu ex-chefe, ele obteve sucesso principalmente depois de ser adaptado para o teatro. Mas nem mesmo Byron se viu satisfeito pela troca. Um conto parecido foi escrito pelo então poeta, mas sem a maestria de Polidori. Esse conto, intitulado Fragmento de um Relato, também faz parte da antologia. Contudo, não tem o mesmo papel extraordinário do texto de Polidori, que mudou os rumos do vampirismo.

E não é a toa que O Vampiro caiu nas graças do público. Cheio de mistério, apresenta personagens sedutores, sendo o vampiro Lord Ruthven o grande “galanteador”. E claro, o final trágico, onde o culpado sai ileso, dá um ar até então pouco comum aos olhos dos leitores. A partir daí o vampiro se consolida como personagem influente e arrebatador, e passa a ser explorado por outros autores, sofrendo mudanças.

drácula 2Entretanto, nem todos os contos possuem a figura do vampiro propriamente dita. O Retrato Oval, de Edgar Allan Poe, O Horla, de Guy de Maupassant e A Floração da Estranha Orquídea, de H. G. Wells são exemplos que não chegam nem perto do homem pálido de caninos afiados e grandes. Esses 3 contos tratam apenas de características presentes no vampirismo, sendo essa o “roubo” da energia de suas vítimas, mas com a mesma importância dos outros contos

O Convidado de Drácula, de Bram Stoker, foge à regra das publicações que antecedem Drácula. O conto foi publicado depois, mas escrito antes. Ao ser divulgado em uma reunião de obras organizadas pela esposa Florence Stoker, logo após a sua morte, O Convidado de Drácula, faria parte do começo do aclamado romance. Porém, as pesquisas de autores consultados por Martha e Humberto sugerem que o conto foi o primeiro passo para que Stoker desse vida ao seu ao seu livro. Logo, o conto não poderia ser deixado de fora.

O Vampiro Antes de Drácula não é recomendado apenas para aqueles que são fãs incondicionais de vampiros. Os que tiveram pouca relação com filmes, peças e livros sobre o tema também devem dar uma chance ao livro para conhecer melhor a personagem. Não só como fonte de diversas curiosidades, mas também para ver o quanto o vampiro mudou também pelo decorrer do século XIX. Sem dúvida é clara a importância que esses contos tiveram na literatura. Porque sem eles, a maioria das histórias de vampiro que tanto veneramos hoje poderiam simplesmente não existir.

Deixe um comentário

Sugeridos
Cópia de MGL6820
LançamentosLiteratura

Hermes Coêlho revisita “Nu” em edição ampliada

Livro que inaugurou a Trilogia do Trauma ganha nova edição pela Patuá...

Carolina Chalita em Eu matei Sherazade, confissões de uma árabe em fúria - Crédito fotográfico Juliana Chalita
AgendaLiteraturaTeatro

“Eu matei Sherazade, confissões de uma árabe em fúria” chega ao CCPJ

Indicada ao Prêmio APTR, Carolina Chalita faz tour da peça que mergulha...

Os livros marcantes de Zuenir Ventura
ListasLiteratura

Os livros marcantes de Zuenir Ventura

Ao longo de sua trajetória como jornalista e escritor, Zuenir Ventura (1931–2026)...

Zuenir Ventura
AstrosLiteraturaNotícias

Memória brasileira e a trajetória de Zuenir Ventura

Existe um tipo raro de jornalista que consegue transformar a pressa do...

HN12428
Literatura

E se um romance fosse construído como um jogo?

E se conceitos usados para criar jogos pudessem ser aplicados à construção...

PHOTO 2026 08 05 19 48 55 (1) (1)
AutoralLiteratura

Trechos de “É Vida Que Segue!” de Daniela Yuri Uchino 

Daniela Yuri Uchino é paulistana, graduada, mestra e doutora em Letras pela...

Ivy
AgendaLiteratura

Ivy Menon lança “Ratos e estrelas habitam o mesmo universo” na Bienal do Livro de São Paulo

Romance de autora de 68 anos, ex-boia-fria, advogada, jornalista e teóloga, aborda...

Capa não volte sem ele
Literatura

Cinco autores nordestinos

A literatura nordestina contemporânea não cabe em uma única chave temática. Ao...

PHOTO 2026 08 05 19 48 55 (1)
LançamentosLiteratura

Além com filas, terapia e agência de empregos para almas em “É Vida Que Segue!”

Lançamento na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, novo livro da...

IMG
LançamentosLiteratura

Escritor Douglas Robberts lança “Meninos avessos, duendes travessos”

Nova obra de Douglas Robberts apresenta o encontro inesperado entre dois meninos...

Christian araujo autor
LançamentosLiteratura

Christian Araújo leva personagens trans a uma Belém distópica em Não Sou um Diário

Escritor e cineasta paraense mistura poesia, ficção científica e cultura pop em...