Primeiro capítulo do livro “Amor de Manjericão”, de Ana Paula Couto

Ana Paula Couto nasceu em Nova Friburgo (RJ), onde ainda reside. Professora de língua inglesa por mais de duas décadas, redescobriu na pandemia sua paixão pela escrita, publicando contos e crônicas em antologias antes de estrear na literatura solo com “Amor de Manjericão”, publicado em 2022. Participou de eventos como Flip e Bienais do Rio,…


Ana Paula Couto nasceu em Nova Friburgo (RJ), onde ainda reside. Professora de língua inglesa por mais de duas décadas, redescobriu na pandemia sua paixão pela escrita, publicando contos e crônicas em antologias antes de estrear na literatura solo com “Amor de Manjericão”, publicado em 2022. Participou de eventos como Flip e Bienais do Rio, São Paulo e de Pernambuco,  além de integrar coletivos de escritoras. Casada, mãe e avó, divide seu tempo entre as salas de aula e a criação de novas histórias.

1º Capítulo Quem sou eu?

“Dizem que a vida muitas vezes parece um romance, mas ela é uma realidade e é essa realidade que conto.”

(Zelia Gattai – 1916/2008)

Sou uma mulher como qualquer outra. Sou tão normal e igual a você. Ser comum hoje, talvez, seja menos notado, mas isso não implica em ser menos importante ou não ter histórias para contar. Pelo contrário, a verdade repousa, muitas vezes, na simplicidade.

Sou de uma geração de mulheres que abriram espaço na sociedade na marra. Digo isso porque, por mais estranho que possa soar essa afirmação em pleno século XXI, nós, mulheres, ainda temos que transpor desafios e nos reinventar perante todos e a nós mesmas o tempo todo. Sou dessas que venceu muitas barreiras para ser respeitada no trabalho, nos relacionamentos e na vida.

Enfim, sou dessas que entoa sua voz, que não tem vergonha de dizer que é feminista e que, não raro, incomoda alguns por falar o que pensa. Dentro dessa fortaleza, criada para sobreviver em espaços tão masculinos e dar conta de tudo, eu me descobri também alguém bem frágil, bem vulnerável. E isso é que me faz sentir assim tão comum, tão igual a você, tão humana.

Vivi uma linda história de amor que me abriu portas para ser quem sou hoje. Para chegar até aqui, tudo que aconteceu foi necessário e fundamental, mesmo quando eu não percebia isso.

Essa pequena grande história de amor, que é a minha vida, se passou no auge dos meus quarenta. Os tais “quarenta” podem te assombrar e amedrontar. Não são à toa as inúmeras piadinhas acerca dessa idade como “Fez quarenta? Agora aguenta! ”. Quando o assunto se restringe aos quarenta anos de uma mulher então nem se fala, a coisa só piora. Se a mulher jovem já é massacrada por padrões estabelecidos como ser bela, simpática e produtiva o tempo todo, a mulher madura encara, além de todos os quesitos citados, talvez a mais cruel cobrança: a de não poder envelhecer e se mostrar envelhecida.

Considero isso muito triste porque essa é uma batalha por si só já vencida e ganha pelo tempo. É uma meta impossível de ser alcançada, afinal, envelhecer faz parte da vida tanto como o nascer e o morrer. O tempo voa, mas o mais interessante nesse voo é que, se quisermos, podemos ser a piloto (a pilota?) dessa aeronave chamada vida. Cabe a você aproveitar o seu tempo, as suas fases da vida, todas elas. Cabe a você aceitar quem você é hoje e se deliciar com isso.

E as histórias de amor? Elas se mostram de várias formas. Podem ser de casais, não só heteronormativos, diga-se de passagem, que se conheceram quando crianças ou adolescentes e passaram uma vida juntos, de romances proibidos, de sentimentos platônicos, de amores à primeira vista, de paixões esfuziantes, encontros casuais e por aí vai. Um acaso de amor pode mesmo mudar e impactar a sua vida e te fazer enxergar tudo de forma diferente. Eu te garanto que pode.

Amor verdadeiro existe, com toda certeza, e a paixão também tem seu lugar na caldeira das relações (ela nos acende de forma “desassossegante”). Mas, falar de amor e paixão é algo sutil e único porque o amor genuíno e a paixão desconcertante são para serem sentidos, e não descritos, e mais ainda, se possível, vividos. Poetas escrevem sobre o amor e a paixão, artistas os expressam e nós, pobres mortais, andamos por aí atrás de vivê-los (ou não).

Quando falo que vivi um “caso” ou acaso de amor não me refiro a nada proibido como uma relação furtiva de traição. Refiro-me a um encontro casual de amor sem pretensões e pudores, sem amarras e expectativas. Essa história foi vivida por pessoas que estavam livres de relacionamentos, que estavam perdidas tentando se encontrar. Será essa nossa eterna caminhada?

Quando falo desse amor como acaso da vida é porque o que vivi não sei nomear. Simples assim. Não precisa ser namoro, nem mesmo caso, um lance talvez, um episódio. Cada vez que perco tempo tentando nomear, pior fica. Talvez porque de fato isso seja totalmente desnecessário.

Voltando à minha história de amor, creio que ela veio para me mostrar que nem tudo é o que parece. Nem o tempo. Que o que parece ser fugaz e rápido pode, muitas vezes, deixar marcas para todo o sempre e que o amor, sim, nos ensina e não a ausência dele. Na minha normalidade de pessoa comum encontrei um amor que acho que nunca terei igual. Ou melhor, vivi um momento de amor que muitos passarão a vida e não terão. Vejam bem o que eu disse: não terei um igual, mas tive outro amor tão especial quanto na plenitude das diferentes formas que o amor pode se manifestar em nossas vidas. Em suma, sou uma pessoa que tem uma história para contar. Espero que você goste, pois é para você que contarei a minha história.


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