EntrevistasLiteratura

Quatro perguntas para o autor Tiago Velasco

O escritor Tiago Velasco veio ao Rio em Dezembro lançar e divulgar seu livro de micro contos chamado Microficções. Neles, Tiago utiliza poucos toques para falar do cotidiano de maneira muito bem humorada. O Lançamento com sessão de autógrafos aconteceu no bar Glicerina. Fizemos quatro perguntas sobre o livro (que pode ser acessado gratuitamente aqui) e a linguagem do microconto. Confira abaixo.

1 – Os textos do seu “Microficções” são ágeis e diretos, como você conseguiu modular a linguagem para que não houvesse de desperdício de palavras, de sintaxe?

A ideia de contenção de linguagem sempre me interessou. Gosto de textos secos, diretos. A verborragia, aquelas imagens construídas com palavras rebuscadas ou pouco usuais não me interessam tanto quanto uma frase enxuta. Talvez tenha sido isso o que me atraiu nos contos do Rubem Fonseca e do Dalton Trevisan na adolescência.

Então, mesmo nos meus textos mais longos, tenho a preocupação de escrever com poucas palavras, usar elipses. Essa é a forma que escolhi para deixar o texto com lacunas, de chamar o leitor para intervir no texto enquanto lê. O Microficções é um exercício extremado de escrever histórias com muito pouco.

2 – Você adotou algum tipo de humor nos textos? Parece que por ter uma contenção forte de linguagem, algum tipo de humor se faz mais presente.

Em vários dos contos há realmente humor. Em geral, ácido. Não sei se é a contenção de linguagem, acho que é algo meu mesmo. O humor está presente na minha forma de me expressar, muitas das vezes involuntariamente, o que reforça a ideia de ser um traço bem profundo da minha personalidade. Fora isso, gosto da ideia de se tratar de algo sério e com alguma leveza. O humor permite isso. Mas que fique claro que não são textos engraçadinhos, ninguém vai morrer de dar risada, é aquele tipo de humor que faz emergir no leitor um riso pequeno, que talvez ele nem perceba.

3 –  Como se faz? para caber um história um enredo em tão pouco toques? Como você desenvolvia o começo? Vinha uma imagem?

Não sei dar a receita. E não estou escondendo o jogo, não tenho mesmo um modelo claro. A única coisa que é clara é que o título é parte importantíssima da microficção. As ideias vêm de forma variada. Pode ter sido algo que ouvi, uma frase que pesquei por aí, uma piada ácida que criei no meio de uma discussão. Mas só isso não faz o microconto. Para transformá-lo em narrativa curtíssima, é preciso um trabalho de escrita e reescrita. Afinal, início, meio e fim muitas vezes estão na mesma frase. É preciso ser detalhista. Desenvolver um olhar para enxergar onde se pode cortar. Escrever palavras e imagens que permitam mais de uma leitura. Esse é o meu esforço. Não sei se consegui atingi-lo. Acho que se eu olhar para esses contos novamente, provavelmente vou alterá-los.

4 – O tratamento do narrador neste tipo de microconto precisa de uma outra forma de desenvolvimento?

Certamente é diferente, porque é tudo muito condensado, o ritmo é outro. Não dá para fazer digressões, não dá para preparar algo por vir ao longo de páginas, enfim, só exemplos. As contradições, o suspense, os comentários, tudo deve ser feito em poucas palavras, em duas ou três frases curtas. E isso exige domínio das sutilezas, das nuances e do não fechamento do sentido.

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