EntrevistasLiteratura

Quatro perguntas para o escritor Alex Andrade

Alex Andrade é escritor e arte educador. Publicou em 2001 o livro de contos “A suspeita da imperfeição”. Andrade escreve desde muito jovem, estudou artes cênicas e trabalhou com produção musical de shows e eventos. Autor dos livros infantis “O pequeno Hamlet” inspirado na obra do bardo inglês William Shakespeare e “A galinha malcriada”, desenvolve em escolas particulares do Rio de Janeiro um trabalho com crianças intitulado “desenvolvimento criativo”, no qual exercita teatro, artes plásticas e jogos lúdicos.

Na literatura escreveu os livros “Longe dos olhos” (Romance/ 2012 – editora Multifoco), os elogiados “Poema” (Contos/ 2013 – editora Confraria do vento) e “Amores, truques e outras versões” ( 2014/2015 – editora Confraria do vento), “As horas” ( 2016 – Editora Penalux). Tem diversos contos publicados em revistas de literatura como São Paulo Review, Homoliteratus, Caos descrito, Pessoa, entre outras. Teve seu conto “Poema” que dá título ao livro de contos publicado em 2013 traduzido para o inglês para o Contemporary Brazilian Short Stories.

Entre tantos títulos para seu desempenho na literatura, Andrade coleciona uns bem sugestivos, como “Don Juan dos aplicativos” (Jornal Tribuna de Santos, por Alfredo Monte) e “Hálito novo na prosa brasileira” (Jornal Folha do Paraná e Revista Zona da Palavra, por Ronaldo Cagiano). Fizemos quatro perguntas ao escritor. Confira abaixo.

1) É muito comum em narrativas que lidam com tempo ocorrer uma psicologização ou um estudo dos personagens, mas você opta por um ação sutil de como os seus personagens se movem dentro de seus “tempos”. Queria que você me falasse disso.

Antes de mais nada, sou um leitor voraz, analítico. Fico pescando das minhas leituras as minhas influências, e como leitor que sou, tento dar voz aos meus instintos para criar. Quando escrevo, essas influências são pertinentes, mas cada escritor também tem que de certa forma imprimir o seu estilo, daí vem a questão do instinto. O tempo dos personagens nas narrativas corresponde ao contexto que quero mostrar, nesse caso do livro “As horas” estava envolvido com a passagem desse tempo, a imagem e o sentido figurado de um relógio que não para. É a locomotiva dos sentimentos que afloram na cabeça desses personagens atormentados pelo tic tac incessante do relógio que rege cada um deles.

2) A ação do tempo é cinética, empurra para frente, mas muitos de seus personagens em seus contos estão paralisados por algum tipo de imobilismo como o personagem “Eu não amava o Rolling Stones à toa”. Queria você, neste conto detidamente, explorar um pouco o papel da música e dos livros dentro das emoções do personagem?

Quando se fala de imobilismo eu vejo incompletudes presentes nas narrativas dos personagens deste conto e do livro em geral. E ao mesmo tempo um fluxo constante desses personagens, pois há em cada um deles uma necessidade de dialogar com todas essas aflições, solucionar as infinitas dúvidas e uma impossibilidade de comunicação com o externo. No caso do conto citado na pergunta, a relação do personagem com a música e os livros é altamente autobiográfica, quando ele expõe as suas angústias e percebe que sem uma coisa e outra, ou seja, sem os discos do Rolling Stones e os livros de Guimarães Rosa, a comunicação fica retida e por consequência, o sentimento fica vago. Muitas coisas que ele viveu estavam relacionadas à música e aos livros, por isso grande parte do conto, ele está em transe, praticamente mortificado.

3) Tua linguagem parece ter uma sobriedade, uma contenção do dizer, mas revela muito nos silêncios, nas fendas do texto. Como foi modular os contos para terem o máximo de sombras, desvãos?

A leitura é para mim um ato solitário, criativo, de imensa grandeza, é uma imersão. Quando a gente escreve vem todas as imagens do que viveu, do que leu, é um exercício autobiográfico, que transporta esse subconsciente e te faz mergulhar nas histórias que vão surgindo, você fica imerso, da mesma forma de quando estava lendo, só que, desta vez, precisa dar movimento e criar novos sentidos. E por conta disso, vazam silêncios, fendas, pausas barulhentas, onde cada personagem vai se modelando e desenhando a narrativa, por isso as incompletudes, a dificuldade de dialogar que surge nos personagens e o imobilismo, que quase, torna tudo fatal.

4) Há um sutil elo entre autor e “leitor” em alguns contos do livro ( Fernando Pessoa e a personagem Poema, e a narradora e o Caio Fernando de Abreu). Como você vê a autoria hoje no meio literário Brasileiro? Há certo ideal de autor, ou certo idealismo por um tipo de autor?

Eu acompanho uma crescente no meio literário, grandes autores surgem a cada lançamento com voz própria, imprimindo seus estilos, o que é significativo e bom. E é também inspirador, porque a gente se movimenta, se nutre. Eu cresci lendo Clarice, Pessoa, Adélia Prado, Caio Fernando Abreu, James Joyce, Hemingway e hoje estou acompanhando muitos desses novos nomes que são muito bons também, não creio que exista um idealismo por autor tal e muito menos ideal de autor, todos são bem vindos e o mais importante é você manter a sua linguagem, o seu estilo, mesmo com todas as influências e o mundo que corre lá fora, o que for da alma, não tem como não agradar e mostrar veracidade.

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