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Quem foi Wilfred Owen, o poeta que desmontou o mito do heroísmo na guerra

por Clarissa Desterro*

A Primeira Guerra Mundial como narrativa foi construída, enquanto acontecia, largamente por quem não lutava nela. Jornais, púlpitos e salas de aula reforçavam um imaginário de honra e sacrifício que pouco tinha a ver com o que ocorria nas trincheiras, e que servia para manter o clima necessário à continuidade do conflito. A maioria dos poetas de guerra colaborava com essa versão, produzindo versos consoladores e patrióticos para consolar os vivos e justificar os mortos. 

Wilfred Owen, tenente inglês na casa dos vinte anos, escreveu na direção oposta. Durante sua experiência de guerra, Owen foi soterrado por explosões, sobreviveu à ataques de gás e viu tantos horrores que desenvolveu o que hoje chamamos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Sua poesia, composta majoritariamente entre 1917 e 1918 e publicada postumamente — Owen foi morto por uma metralhadora sete dias antes do armistício—, é hoje a maior expressão da poesia de guerra contemporânea em língua inglesa. Descrito por Dylan Thomas como “um poeta para todos os tempos, todos os lugares e todas as guerras”, homenageado ao lado de nomes como Shakespeare e Jane Austen na Abadia de Westminster, amplamente lido por todo o mundo anglófono e sujeito de filmes, livros, estátuas e memoriais, esse rapaz tímido com um talento ímpar e uma forte sensibilidade anti-belicista foi a voz dos soldados do além-túmulo.

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Owen compôs a maioria de seus poemas internado no hospital psiquiátrico de Craiglockhart, na Escócia. A escrita começou como terapia, mas se tornou urgência política: registrar a verdade para um público que consumia uma versão altamente romantizada do conflito. Owen admirava Keats e os românticos ingleses desde jovem, mas foi a guerra que transformou seu interesse por poesia em vocação e em instrumento. Seus poemas carregam o trauma na estrutura: a confusão entre pesadelo e memória, a desorientação sensorial, a indistinção entre estar vivo ou morto. 

O alvo de Owen era aquilo que ele chamou de “a Velha Mentira”: a ideia, sintetizada no Dulce et decorum est pro patria mori de Horácio, então repetido à exaustão, de que morrer pela pátria é doce e nobre. Enquanto outros apresentavam soldados lutando com bravura e morrendo com serenidade, Owen descrevia rapazes mutilados e sufocados por gás, corpos largados em carroças, enlouquecidos e suicidas. Sua poesia é de uma brutalidade visual deliberada e recusa qualquer consolo; Owen escrevia para acusar, envergonhar, e apontar a forma como a retórica do sacrifício servia para esconder e permitir a continuação da carnificina. 

Enquanto conflitos armados continuam sendo justificados com as mesmas abstrações, sobreviventes seguem sendo descartados, e jovens ainda são aliciados com as mesmas conversas ideológicas e vãs de honra, pátria e glória, a poesia de Owen segue atual. Lê-lo é falar de guerra — e de arte de guerra — sem reproduzir retóricas de heroísmo e mitos que matam. Assim, é necessário. “Que o horror retorne para dar uma palavra apenas…”

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*Clarissa Desterro é historiadora, escritora e tradutora formada em História pela Universidade Federal do Estado do Amazonas (Unirio). Sua pesquisa de graduação teve como foco a Primeira Guerra Mundial, investigando suas representações culturais e os impactos físicos e psicológicos do conflito, com ênfase em trauma, masculinidades e literatura de guerra. Leitora de Wilfred Owen desde a adolescência, traduziu, escreveu e organizou a antologia A velha mentira – poemas da Grande Guerra por Wilfred Owen (Caravana, 176 págs.), que reúne trinta poemas do autor, além de ensaios analíticos, biografia e contextualização histórica. 

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