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Resenha: Kafka – Por uma Literatura Menor

É preciso dizer, para começar, que não sou deleuziana. Nem bacharel em filosofia. É preciso confessar que, por um bom tempo, torci o nariz para Deleuze e Guattari. Ou talvez para deleuzianos. Há alguns anos, no início da faculdade de psicologia, tivemos contato com Deleuze, que perpassa as ciências humanas. Seus textos e seus diálogos com Foucault e Guattari são usados por aqueles que querem pensar a saúde mental, as instituições, a psicanálise. Meu nariz torcido talvez se devesse à forma como me foi apresentado, há 10 anos. De lá pra cá, minha relação com o pensamento de Deleuze e Guattari não teve continuidade e foi ‘aos pingadinhos’.
kafka-por-uma-literatura-menorPor motivos de força maior, entrei em contato com o livro de Deleuze e Guattari que saiu em nova edição pela editora Autêntica, em 2014. Trata-se de Kafka: Por Uma Literatura menor, com tradução de Cíntia Vieira da Silva e revisão de tradução de Luiz B. L. Orlandi. A leitura do livro me trouxe um início (não sei se posso me comprometer…) de uma ressignificação de Deleuze e Guattari dentro de mim. Não sei que lugar irão ocupar, mas uma simpatia (das grandes) cresceu, porque o texto, antes de tudo, aponta para uma produção de pensamento. Entenda-se tudo o que ali diz ou não, tenha-se lido antes qualquer texto dos autores ou não, ache-se fácil ou difícil, o livro permite uma leitura histérica (usando o termo psicanalítico, em provacação-brincadeirinha com os próprios autores, que dialogam incessantemente com a psicanálise, ainda que para dela caçoar), deixando de lado uma leitura obsessiva, isto é: não é preciso entender tudo, ou entender 70% do livro, ou 65%, vá lá, para que se prossiga na leitura e para que ela desperte interesse. Na verdade, o erro aqui é a ideia do entendimento. Prefiro, de novo, a ideia de produção. A leitura produz algo. Algo a se pensar, um estranhamento, uma vontade de retornar a Kafka, uma vontade de fazer o inventário do que, em Kafka, ainda não foi lido. Uma vontade de cotejar cartas, novelas e romances, seguindo o brilhante quarto capítulo em que os autores examinam cada um desses três elementos do que chamam de “máquina literária, máquina de escrita ou de expressão em Kafka” (p. 58). O exame minucioso das cartas é uma joia à parte dentro da joia maior do livro, o pacto diabólico que Kafka faz através delas. A leitura dessa nova edição aponta para a produção de uma nova visão de Kafka (e, para mim, pessoalmente, de uma nova visão de Deleuze e Guattari).
Assim como na psicanálise (que, de algum modo, os autores estudam, citam e da qual desdenham) o momento do relato de um sonho é também muito mais uma produção do que uma decodificação. O analisando traz o sonho. A ideia, a partir daí, não é a de um analista, sábio, detentor de uma verdade que escapa ao analisando. O analista não irá explicar o sonho, decodificá-lo, ‘isso é aquilo e aquilo é isso, você está salvo, você está perdido’. A ideia é inteiramente outra. O analista escuta e faz uma intervenção, se fizer. Ele sublinhará uma palavra. Fará uma pergunta. Ou, ao final, pedirá que o analisando conte novamente o sonho, como se fosse um filme. Ou só ouvirá. Mas o fato de estar ali, o sonho, sendo dito, já aponta para uma produção. Quantas vezes não escutei no consultório e no ambulatório de saúde pública o paciente, relatando um sonho, deter-se e dizer: ‘nossa, estou pensando nisso agora enquanto falo com você’, e a partir daí produzir uma ideia nova de si mesmo. Se ele contar o sonho novamente, não será raro trazer um elemento novo. A literatura, creio, serve também a esse fim. Lê-se Kafka: Por uma literatura menor e algo se produz, como num sonho falado ao analista.
O brilho maior do livro se deu, ao meu ver, nos capítulos 3 e 4. Sobre o quarto, falamos, e ele se detém nas cartas, nas novelas e nos romances. O terceiro, O que é uma literatura menor?, introduz o conceito que já aparece no título do livro. A literatura menor fundada no coração de uma literatura estabelecida, de uma literatura de mestres promove certa forma de fazer literário que não se prende aos limites de um território (cultural, linguístico, estético, literário). A leitura permite a aproximação com os conceitos de desterritorialização e devir, que os autores trabalham. A questão fundamental e política de uma literatura menor evoca o problema daqueles que vivem em uma língua que não é a sua, ou que não se entendem com a língua maior da qual se devem servir. Trata-se do problema dos imigrados, das minorias, e que se torna o problema de uma literatura menor.
Esse último é o capítulo chave para entender o livro como um todo, o capítulo, digamos, cognitivo, para, a seguir, pousarmos felizes no capítulo afetivo, em que é possível ler com gratidão que os autores têm a arrematar sobre Kafka e que vale a reprodução não íntegra:
“É por isso que é tão inconveniente, tão grotesco, opor a vida e a escrita de Kafka, supor que ele se refugia na literatura por falta, fraqueza, impotência diante da vida. (…) viver e escrever, arte e vida, só se opõem do ponto de vista de uma literatura maior. Kafka, mesmo morrendo, é atravessado por um fluxo de vida invencível, que lhe vem tanto de suas cartas, de suas novelas, de seus romances, quanto de seu inacabamento mútuo por razões diferentes, e comunicantes, intercambiáveis. Condições de uma literatura menor. (…) Tudo é riso, a começar pelo Processo. Tudo é político, a começar pelas cartas a Felice” (PP. 76-78).

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