7 de Agosto. Sala Funarte Sidney Miller. O nome das coisas diz coisas. Ava Patrya Yndia Yracema, além de ser o nome do segundo álbum de Ava Rocha, também é parte de seu longo nome. Seu álbum, disponibilizado para download gratuito, foi uma descoberta bem poética. Não conhecia a musicalidade de Ava, tampouco a associação ao Rocha, mas me senti atraída pelo que seu álbum trazia de mata densa, animais soando num não sei onde, ventania-silêncio, mistério e fluxo.
Música brasileira é música boa, é música com voz de mulher. Ava Patrya Yndia Yracema é um disco bastante colorido e multi-texturizado, onde a coisa mais importante do mundo são as poesias de suas canções.
Complexo, com notas doces, íntimas e densas, o álbum de fato só se tornou muita coisa depois de experienciar o show. É a materialização de um show-ode à afroindigena complexidade brasileira. Um cocar de facas, objeto-veste feito por Ava, é vestido. Símbolo potente de desconstrução histórica e respeito às tradições indígenas. Ava é América do Sul, hermanas.
Em seu show, sua voz como onda dança em pedra, bate, escoa, toma o ar como maresia boa. Cênica, performática, materializa no ar a importante poesia das músicas e dos ritmos. Em cada gesto, muita coisa dita e aprofundada. Eu que sou pouco impressionada mas muito impressionável pelo que me toca, me senti convencida a estar debaixo do oceano ouvindo encantanda seu canto rasgado.
Acompanhada pelo talento dos músicos de sua banda, Thomas Harres, Eduardo Manso, Felipe Zenícola e Marcos Campello, que em ritmo frenético que engrandeciam a sonoridade a cada nova virada. De fato, toda a experiência foi bem montada para um show de grande qualidade.
Um show íntimo, pode-se dizer, com uma plateia íntima, espectando em cadeiras. Um show-peça, que faz sentido experienciar sendo levada pela percepção da cabeça e não tanto pela expansão do corpo. Mas sim, em muitos momentos a intenção do corpo era acompanhar a intensidade da banda.
Fui muito tomada pelo simbolismo apresentado no gesto-ritual de Ava, qualidade muito marcante também na produção de Glauber Rocha, seu pai. Aliás, seu show-álbum não me parece dissociado de uma herança da complexidade da arte de Glauber (não digo isso como um enquadramento blasé da obra da filha na obra do pai, pelo contrário, acho que Ava consegue ter uma coisa tão dela).
Com participação de Negro Leo (que a acompanha como poeta, autor de quatro músicas de seu álbum e também como marido) seu álbum-show celebra a sutileza múltipla das coisas sentidas na vivência cotidiana, na percepção de si no mundo.
Ava Patrya Yndia Yracema é um álbum-show que saúda os quatro elementos e todos os cantos do Brasil.
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