Música

Crítica: ‘The Magic Whip’ traz Blur sem novidades, mas eficaz

Há vinte anos, iniciava-se a rivalidade mais acirrada da música pop britânica. Os dois maiores nomes da cena que ficou conhecida como brit pop lançavam ao mesmo tempo seus discos: o Oasis vinha com seu segundo trabalho, “What’s The Story Morning Glory” e o Blur lançava “The Great Scape”. Entre farpas e xingamentos entre as duas bandas (os irmãos Gallagher do Oasis geralmente eram os provocadores), saíram ganhando os fãs do rock, que viram o que talvez tenha sido a última cena musical de peso da terra da rainha, que já tinha nos dado a British Invasion, o Glam Rock e o Punk. Agora, cá estamos em maio de 2015, e temos fortes rumores de uma volta do Oasis, aventada em recente declaração de Noel Gallagher e o lançamento do novo disco do Blur, “The Magic Whip” (Parlophone/2015). E o que nos traz o Blur 2015? Nada de novo.

A banda havia se separado em 2004 após a turnê do álbum “Think Tank”, lançado um ano antes. O guitarrista Graham Coxon já havia deixado o grupo, antes mesmo das gravações do derradeiro disco e o Gorillaz, projeto paralelo de Damon Albarn ia de vento em popa. Depois de seis anos se dedicando tanto ao Gorillaz quanto à sua super banda The Good The Bad & The Queen, Albarn se reuniu com o Blur, em 2009, e, como era de se esperar, a volta foi um grande sucesso, com shows lotados, e rendeu até uma passagem pelo Brasil no festival Planeta Terra. Porém todo o repertório era o clássico, não se falava em um álbum de inéditas. A volta do Blur ao estúdio conta com 12 canções distribuídas em 51 minutos de audição. A falta de novidades vem para o bem e para o mal. Por um lado, o Blur não se arrisca fora da fórmula que deu certo por 12 anos, mas por outro, não inova, o que resulta em uma mistura paradoxal de sentimentos de frustração e alívio.

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A maturidade é bastante perceptível, assim como a sofisticação sonora, que já era um traço característico da banda, mas está ainda mais aguçado neste aqui. O Blur sempre foi uma banda que se destacava mais por seus singles arrebatadores do que pelo conjunto de seus álbuns (com exceção dos magníficos Modern Life Is Rubish e Parklife), e “The Magic Whip” não foge a essa regra. As músicas divulgadas isoladamente antes mesmo do lançamento do álbum são as melhores. A primeira, ‘Lonesome Street’, vem com a marca registrada da banda impressa, é impossível ouvir e não reconhecê-los nos primeiros acordes, assim como ‘Go Out’ e ‘Ice Cream Man’, além de ‘I Broadcast’ que nos remete imediatamente a Gorillaz.

O disco foi gravado em um apertadíssimo estúdio em Hong Kong, após terem visitado a Coreia do Norte, que segundo Albarn foi o que os motivou a gravar o novo material na Ásia, e o contexto asiático transparece blur-2015conceitualmente no trabalho, desde os ideogramas da capa do e o clipe de ‘Go Out’ (já exibido aqui na revista Ambrosia) até os títulos de músicas como ‘My Terracota Heart’ (referência às famosas estátuas de terracota da China), ‘Ong Ong’ e ‘Pyongyang’, que por sinal é a mais bela faixa do álbum. A letra exalta a beleza sem esquecer da ditadura norte coreana, no refrão que diz Kid the mausoleum’s fallen/And the perfect avenues/Will seem empty without you/And the pink light that bathes/The great leaders is fading/By the time your sun is rising there/Out here it’s turning blue/The silver rockets coming/And the cherry trees of Pyongyang/But I’m leaving (Garota o mausoléu caiu/E as avenidas perfeitas/vão parecer vazias sem você/E a luz rosa que banha/Os grandes líderes está desaparecendo/No momento em que o seu sol está nascendo lá/Aqui fora está se tornando azul/Os foguetes de prata vindo/E as cerejeiras de Pyongyang/Mas eu estou deixando).

Pode-se dizer que o Blur entregou um trabalho sob medida do que era esperado. Se não há surpresas, também não há equívocos. É um trabalho de qualidade, bem produzido e os singles farão bonito nos shows da nova turnê, que passará pelo Brasil ainda este ano. Damon Albarn sabe que experimentações mais audaciosas devem ser deixadas para seus projetos paralelos. No Blur a ordem é jogar para a plateia. “The Magic Whip” cumpre essa tarefa com bastante disciplina.

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