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Crítica: World Peace Is None Of Your Business mostra que Morrissey ainda é relevante

Stephen Patrick Morrissey aparentemente exorcizou seu demônios na biografia lançada no ano passado, revelando pela primeira vez das brigas da época de The Smiths e e assumindo sua tão especulada homossexualidade. Mesmo no show realizado no Rio de Janeiro em 2012, o cantor já parecia mais bem-humorado, ao contrário do azedume mostrado na primeira visita ao Brasil, em 2000. Morrissey pode até estar mais bem resolvido, mas suas composições continuam imbuídas de críticas e ataques ferinos aos equívocos inerentes à condição humana – como um Oscar Wilde moderno. A boa notícia é que o bom padrão do repertório da fase madura do cantor (que se inicia no magistral You Are The Quarry de 2004) se mantém em World Peace Is None Of Your Business (EMI/Harvest 2014) lançado em julho na Inglaterra e que chegou recentemente ao Brasil.
Genuinamente provocativo, Morrissey mostra na já faixa titulo que não está disposto a abandonar seu viés crítico que força as pessoas a fazerem exame de consciência mesmo que a contragosto. Na letra ele alfineta o cidadão comum que no fundo sabe que as coisas estão erradas, mas prefere cuidar de sua vidinha ordinária ao invés de tentar impulsionar uma mudança. Morrissey também ataca de defensor dos animais (ele é vegetariano e proíbe venda de sanduíches que contenham carne e embutidos em seus shows), em ‘Bullfighter Dies’. No refrão, ele se regozija ao assistir a morte de um toureiro em plena arena: “Hooray, hooray/The bullfighter dies/Hooray, hooray/The bullfighter dies/And nobody cries/Nobody cries/Because we all want the bull to survive” (Urra, urra/O toureiro morreu/E ninguém chorou/Porque todos nós queremos que o touro viva).
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Em ‘I’m Not A Man’, deixa claro sua total falta de identificação com o modelo tradicional masculino (“I’m not a man/I’m not a man/I’m something much bigger and better than/A man” – Eu não sou um homem/Eu não sou um homem/Tenho algo muito maior e melhor do que/Um homem). Pode ser considerada a primeira canção que traz abertamente um teor homossexual, embora a temática já constasse nas entrelinhas desde os tempos de The Smiths. Há também um ataque severo a mulheres que casam por interesse em ‘Kick The Bride Down The Aisle’. “Kick the bride down the aisle/And treasure the day/I know so much more than I’m willing to say/She just wants a slave/To break his back in pursuit of a living wage/So that she can laze and graze/For the rest of her days/Write down every Word I say” (Chute a noiva até o altar/E valorize o dia/Eu sei muito mais do que eu estou disposto a dizer/Ela só quer um escravo/Para quebrar as costas em busca de um salário/Para que ela possa descansar e pastar/Para o resto de seus dias/Anote cada palavra que eu digo) canta ele com sua habitual mordacidade.
Como é característico desta fase madura de Morrissey, o disco conta com belas melodias e arranjos elaborados, como ‘Staircase at the University’, ‘Neal Cassidy Drops Dead’ e ‘Smiler With a Knife’. Produzido por Joe Chicarelli (que já produziu Etta James, The Killers, The Strokes), Morrissey se cercou da ótima banda de apoio do álbum anterior, ‘Years Of Refusal’ de 2009, formada por Boz Booer e Jess Tobias (guitarras), Solomon Walker (baixo) e Matt Walker (bateria), além de Gustavo Manzur (teclado e percussão).
World Peace Is None Of Your Business endossa que Morrissey, o homem das letras do The Smiths, aprendeu com aquele convívio com o guitarrista Johnny Marr (que lançou seu solo no ano passado) como se faz boas melodias, um intercâmbio que já havia rendido pérolas como os discos Viva Hate e Your Arsenal, e agora vem com uma sequência de bons trabalhos nos últimos dez anos. Difícil, mordaz, Morrissey ainda se mostra relevante.

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