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Entrevistamos o músico canadense Robertson

O músico canadense Robertson está no Brasil divulgando seu trabalho e fará um show na Áudio Rebel, em Botafogo, no Rio de Janeiro nesta segunda feira, dia 29 de junho. Natural de Montreal, Robertson é multi-instrumentista, compositor, produtor (produz em seu estúdio em casa) e faz um som baseado no funk, jazz, soul e elementos de música brasileira.

O artista, que estava à frente da aclamada banda Bullfrog, já participou do lendário programa de John Peel na rádio BBC, o John Peel Sessions, e também excursionou com DJ Kid Koala, com quem faz uma parceria de longa data e com Money Mark do Beastie Boys. Nesta passagem pelo Rio, Robertson estará acompanhado do baterista e percussionista finlandês radicado no Brasil, Sami Kontola.

O Ambrosia bateu um animado papo sobre música com a dupla, que promete uma noite festiva na apresentação de hoje.

Em sua carreira solo e com sua banda, o Bullfrog, nota-se uma forte influência de soul e funk. Qual a relevância do gênero no Canadá? Vocês têm uma cena forte?

Bem, na época do Bullfrog, quando a banda era mais popular, a banda está parada agora, nós paramos em 2004. Mas, então, começamos em 97 quando houve uma grande onda de acid jazz, que é um estilo iniciado pelo DJ Gilles Peterson, em seu selo em Londres. Consiste em misturar hip hop e jazz. O Bullfrog era o mais funk na cena, colocando influências de James Brown e funk da velha guarda, mas parece que hoje não está tão popular em Montreal. Mas, você sabe, essas tendências vem e vão, mas a base é a boa música. Eu vejo hoje algumas bandas voltando àqueles estilos e que estão ganhando certa atenção por lá. A cidade sempre foi ligada em música, por exemplo, o jazz, desde os anos 40, quando o álcool era ilegal nos Estados Unidos, todo muito foi para Montreal, muitos músicos, muitas big bands foram tocar lá. Oscar Peterson é de lá. Montreal tem essa herança, a música americana é muito viva em Montreal, a música gospel, há algumas comunidades que mantêm esse estilo vivo, há uma banda muito popular, a Montreal Jubilee Gospel Choir, uma banda gospel muito popular, que mistura funk e tal.

Nos anos 90, época em que o Bullfrog surgiu o soul estava tendo essa espécie de renascença na cena pop. Era de fato uma época efervescente para a sonoridade não?

Sim, eu acho que na comunidade hip hop e na de jazz houve um redescobrimento dessa boa música, grupos de hip hop como US3 estavam usando samplers de músicos de jazz

(Sami): havia um trompetista finlandês que tocava no disco de US3, na música que usava sample de Watermelon Man, Cantaloop.

Havia esses grupos usando samples. O hip hop estava explorando e cruzando com esses sons de raíz, gente como Erykah Badu, Outcast, estava fazendo isso. E nós no Bullfrog costumávamos ouvir a isso tudo na van, dirigindo através da América, ouvindo também o Jamiroquai, e também coisas clássicas como James Brown. Mas definitivamente foi uma grande época para isso, há 10, 15 anos. Havia também nomes como Brand New Heavies, que eram muito bons.

E quais são os artistas que influenciaram a sua música?

Eu teria que ficar aqui a noite inteira para citar todos (risos). Citando alguns nomes, eu sou apaixonado até a morte por Sly & the Family Stone, Curtis Mayfield, Michael Jackson e tudo que Quincy Jones produziu, e por aí vai. Nile Rodgers e tudo que ele faz, disco. Minha primeira vez no Brasil em 1999 em São Luis eu fui ingerindo a sonoridade e então sou grande fã de Jorge Bem e Carlinhos Brown.

Robertson e Sami Kontola
Robertson e Sami Kontola

Como você descobriu a música brasileira?

Foi por acidente (risos) Eu estava andando pelas ruas de Belém e São Luis e, claro, eu já havia aprendido sobre bossa nova e Tom Jobim e jazz. Eu estudei jazz por alguns anos, então eu sabia bem sobre o que era bossa nova, mas eu não conhecia muito sobre música brasileira, pois você sabe, há uma diferença entre a bossa nova que é influenciada pelo jazz e a música brasileira genuína. E tive contato com a música baseada no folclore, com percussão, o Samba e o samba reggae, forró. Eu gravitei nisso, pois notei que essa música tem groove, o baixo é forte, tem muito ritmo, então é como primo do soul/funk americano vindo das mesmas influências africanas. Foi puro acidente, mas definitivamente foi amor (risos)

E como você e o Sami se conheceram?

Outro feliz acidente. Eu tinha um show no réveillon e eu decidi agendar o show aqui, através de um amigo de um amigo, e o baterista que eu chamei cancelou dois dias antes do show (risos). Daí conheci Sami através de um amigo. Sami é finlandês e vive aqui há sete anos e meio e toca na bateria da Mangueira, e absorve esses estilos já há um tempo e, claro, combinamos bem, já que somos dois estrangeiros no Brasil e os dois observam da perspectiva exterior

(Sami): E os dois são funk old school também

E temos em comum influências de blues funk. E no que tange à música brasileira temos a mesma perspectiva, uma vez que não somos daqui. Nós pegamos todas as coisas suculentas que queremos, como “hum, gostei disso”, “prova isso”. E eu vejo que a música brasileira é aberta a isso, e músicos fazem assim, pegam os ingredientes que eles gostam e fazem um novo prato.

Bem, no Brasil, as pessoas sempre associam o Canadá a Rush, Celine Dion, Alanis Morissette, e quando se fala de música mais alternativa, o nome que vem é Arcade Fire. Como você define a nova cena musical canadense?

É meio difícil de definir, pois somos um país grande com uma população pequena. Não é como nos EUA ou Brasil, mas com certeza há muitas cidades pequenas canadenses onde há rock e folk, então muita gente acha que Canadá só tem folk, e a mídia usa muito isso. Por exemplo, o Arcade Fire é chamado de banda independente, mas eles não são mais independentes, é uma banda de corporação (risos). É difícil de definir o que é realmente indie. Eu era indie quando comecei a carreira solo, usando influências de música brasileira, era um show de um homem só, usando pedais e tal. Então eu fiz esse tipo de coisa também, usando música de raiz É aquilo, indie music é aquilo que não possui o grande dinheiro por trás, é estar livre para ir onde quer. Mas eu acho que o mundo está mais aberto para o indie porque agora todos podem fazer seu próprio musica agora, com menos dinheiro e pode ser muito criativo

E você acha que a internet de fato colabora nesse processo?

Absolutamente, é nossa salvação hoje, a internet como se estivesse substituindo as gravadoras. Desculpa pessoal de gravadoras, mas é como está sendo. Agora eu não tenho um grande público em um só lugar, tenho fãs espalhados pelo mundo. É interessante, é diferente. Tem sido uma boa coisa para criatividade está tirando o poder do grande capital. É muito bom.

Pode falar de seu trabalho com Kid Koala?

Bem, no passado, eu e Kid Koala produzimos Bullfrog juntos e eu escrevi algumas canções no seu primeiro disco e nós fizemos algumas coisas a partir dali. Ele produziu meu primeiro disco, fez a mixagem. Agora estamos trabalhando em um novo disco, misturando música brasileira com soul e eu devo fazer alguma mixagem com ele para isso. Mas ele é muito ocupado com sua carreira solo, ele faz muitas coisas e agora eu acho que ele tem de estar em vários projetos para sobreviver, continuar ativo como músico, sabe? Kid Koala é muito conhecido, foi bom para mim, eu fiz coisas minhas, eu toquei na França, fiz um álbum, participei de alguns programas de TV. Ele é um músico incrível, e muito original, é fácil ser eclipsado por sua forte personalidade como artista, mas foi muito bom para mim sair e fazer coisas sozinho, me ajudou a me desenvolver como artista no estúdio também.

Você lançou álbuns em vinil, a internet é um bom meio de produção, há a facilidade do download e do streaming, mas há também uma boa demanda por vinil. Você entrou nessa onda?

Absolutamente. O último disco eu lancei em vinil de sete polegadas, e claro, custa dinheiro, mas temos alguns grandes fãs que gostariam de adquirir. Não há nada mais incrível do que ver sua música em um vinil. Então fiz essa edição limitada de 7 polegadas com duas músicas, foram só 300 cópias.

O primeiro disco do Bullfrog se chamava ‘Vinyl’, ele foi lançado no formato, não é?

Sim, sim.

Mas em 1999 o vinil ainda não estava nesta crista da onda.

Não, mas nós trabalhávamos com DJs e eles achavam legal o vinil. Lançamos uma versão de 7 polegadas 33 RPM com quatro canções. E mesmo o disco completo do Bullfrog foi lançado em vinil duplo lançado pelo selo Rope-a-Dope

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Por último, o que vocês têm para o show no Brasil?

Vamos tocar um material novo, uma mistura de canções originais, algumas versões, faremos cover de Talking Heads misturado com samba reggae e funk. Temos convidados incríveis como Mario Brother, ex- vocalista do Farofa Carioca, as vocalistas da banda Pássaro, que farão backing vocal e elas têm seu próprio material. Vai ser uma noite festiva, com esses artistas juntos, misturando tudo

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