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MPB – Manifesto Popular Brasileiro: Um grito e um Beijinho no Ombro

São tantos tópicos a inserir nesse manifesto: Estético (para quem não vê o belo apenas pelo prisma clássico imposto pelo conservadorismo); Dialético (para quem tem a mente aberta ao novo e a pluralidade de expressões); Poético (pra quem tem a alma libertária, sensível, não vive a base de 2+2, e da matemática e seus resultados exatos).
Confesso não saber por onde começar essa catarse mimeografada.
– Pelos clássicos ou pelos contemporâneos?
Iniciarei pelo epicentro de toda polêmica, traçando a trajetória da bala que acertou em cheio o peito inflado dos intelectos atemporais, que a grande maioria, prepotentemente, vos julga ser.
Uma cantora, um beijo, um funk, uma questão (que carrega em si tantas outras importantes questões que ficaram perdidas no ensaio sobre a cegueira), uma prova de filosofia (do grego: amor a sabedoria), e uma prova (é prova… O nosso modelo educacional ainda se sustenta a base de provas…) que prova – vale a redundância – como a sociedade brasileira continua extremamente preconceituosa seja pelo viés lingüístico, econômico e musical.
Tenebroso esse dom que certo mitiê de brasileiros tem – herança maldita– em valorizar apenas o que é erudito, ao que é fruto próspero da árvore academicistas, o biscoito fino da prateleira.
Um professor de Filosofia (ratificando: a matéria é FILOSOFIA, não MATEMÁTICA) insere na sua prova para os alunos do Ensino Médio (ratificando: 1º, 2º e 3º ano, pré vestibulandos) a seguinte questão:
“Segundo a pensadora contemporânea, Valesca Popozuda, se bater de frente é:”
A música em questão é ‘Beijinho no Ombro’ da funkeira (não é interprete, não é cantora, é DIVA) Valesca Popozuda (não é Zé, não é Chico, não é Tom, não é Maria, não é Gal, é Walesca, ex-Gaiola).
O paragrafo anterior é auto-explicativo, justifica, sem justificativa, toda a ação.
E completando os meios, usados para justificar os fins, assisto uma reportagem na TV – entre tantas – onde as pessoas questionam o viés filosófico de vosso mestre – o professor – sob a alegação de que em meio a tantos assuntos importantes; e em meio a um cardápio variado de música, ele poderia ter escolhido uma canção melhor – os critérios dessa avaliação não foram revelados (se é que precisa); por que escolher uma música de funk?

Valesca Popozuda 2

Alguns deles antes de cristalizar vossas teorias e cartilhas educacionais, pararam para se questionar o contexto no qual a questão estava inserida? Quais assuntos foram conversados, debatidos em sala? Tenho quase certeza, de como 2+2 são 4, que não.
Perguntas que foram levantadas pelo réu… Quero dizer… O professor do caso, e um colega que saiu em sua defesa.
Perguntas vãs, já que o que contexto pouco interessa quando se tem no centro do palco, uma personagem feminina, de personalidade, e sem falsos pudores.
Se os ‘críticos’ se permitissem escutar de maneira branca e assistir o videoclipe da música (um dos vídeos mais bem produzidos da nossa raquítica – quase inexistente – indústria cultural de clipes musicais) iam perceber que por trás do hit periférico e repetitivo, existe um subtexto que retrata toda uma condição feminina, até então imposta pela sociedade machista ortodoxa, e que vai ruindo gradativamente…

Se coloquem no lugar do Tico Santa Cruz – roqueiro, tatuado – e analisem a música ‘Lepo Lepo’ do Psirico – banda baiana, de pagode, do carnaval – e vocês verão que beijinho no ombro não é só apenas ‘tiro, porrada e pomba’ e que o aprendizado de uma matéria não se resume a uma questão de prova.
Em uma das aulas de Literatura Brasileira IV, meu professor nos confessou que ao fazer sua tese pós graduação, foi instruído pelo orientador a controlar todo seu impulso emocional ao tecer seus comentários e análises sobre Paulo Leminski, poeta a quem tanto admira, e objeto da sua pesquisa.
Racionalidade não é um adjetivo muito presente nas linhas arianas. Minha curva segue pela ponta da intensidade.
Seguindo lucidamente esse trajeto, cada vez mais convicto da minha admiração artística para com a persona feminina anti-recalque da nossa contemporaneidade, li sua entrevista concedida ao jornalista Léo Dias (Jornal O Dia).
– “Não sou pensadora”. (É modesta!)
Na primeira pergunta – certeira resposta – um ‘rala’ na indústria do patrocínio:
Léo Dias (O Dia): Você esteve na São Paulo Fashion Week e no Fashion Rio. Tem patrocínio de alguma marca?
Valesca Popozuda: Não, não. Eu não sou de ninguém.
Em tempos de monopólios culturais e cárceres de incentivos fiscais é louvável e cada dia mais raro ver artistas que ao invés de se curvar diante os padrões estéticos e comerciais cruelmente impostos pelo CNPJ das grandes empresas e seus CPF’s, assumem sua independência artística na autenticidade do seu trabalho – independente do gênero – e na verdade do conceito ideológico que eles se propõem a passar.
Como artística que sou – ou tento ser – a sagacidade dela me injeta uma dose considerável de otimismo e incentivo para que eu siga adiante, mesmo vendo o cruel jogo de panelas do quarto de empregada.
… E pra seguir o conceito da nossa pensadora contemporânea:
– Beijinho no Ombro! E rala suas mandadas!

Valesca Popozuda - Beijinho no Ombro

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