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Pixies voltam sem ferrugem em "Indie City"

Pixies2 Credit Rob Verhorst Redferns@1400x1050

E lá se vão 21 anos desde o fim dos Pixies. Ou melhor, do que podemos chamar, primeira fase do Pixies, e 23 anos desde que fora lançado o último álbum de estúdio da banda, o experimental ‘Trompe Le Monde’. A partir daí, o quarteto formado na cidade americana de Boston, em 1987 ,virou lenda e a maior referência da chamada cena indie. Um retorno era tão pouco provável quanto uma volta do The Smiths ou dos Beatles. Frank Black (ou Black Francis) tinha diferenças irreconciliáveis com a baixista Kim Deal, a outra metade do centro de comando da banda. Tínhamos que nos contentar com as respectivas carreiras solo e com os quatro discos que formam o clássico legado do quarteto. Até que em 2004 eles resolveram se juntar para uma turnê, que passou pelo Brasil no finado festival Curitiba Pop Festival.

O sucesso da turnê, como de esperado, foi grande e cogitava-se o lançamento de um disco de inéditas. A banda ainda voltaria ao Brasil em 2010, no também finado festival SWU. Foi a última oportunidade de vermos a formação original em ação. No ano seguinte Kim Deal anunciou a sua saída do grupo. Na verdade ela já havia revelado que só tinha topado a reunião, porque o guitarrista Joey Santiago alegou que com o dinheiro poderia pagar o colégio dos filhos. Foi por uma causa nobre.

Pulamos para 2014. Com uma nova baixista (na verdade a segunda desde a saída de Kim), a argentina Paz Lenchantin -que já tocara com Billy Corgan na banda Zwan– o trio lança o tão esperado novo trabalho que leva o título de ‘Indie Cindy’ (PIAS/2014). Na verdade, o álbum é a reunião dos 3 EPs lançados entre setembro de 2013 e março desse ano (EP-1, EP-2, EP-3) adicionada da inédita “Bagboy”. Os fãs podem dormir tranquilos. A frieza do recente show do Lollapalooza no início de abril não se repete aqui. Retornos depois de longos hiatos costumam ter resultados irregulares, mas não é o que se ouve nas 12 faixas de Indie City. Claro, não há aqui o frescor, a novidade e o impacto dos álbuns da primeira fase. Porém, não há uma faixa sequer que manche o legado da banda. Usando a linguagem futebolística (a Copa está aí), a tática do Pixies é não mudar o time que está ganhando, apesar de desfalcado de um dos atacantes. Isso é sentido logo na primeira faixa, “What Goes Boom”, que traz aquele tradicional peso distorcido pixiano. Na sequência vem “Queens And Blues”, que envereda pela veia mais melódica dos “duendes”(“Here Comes Your Man” é a prova de que eles sabem fazer pop melódico). A bela faixa título é um pouco mais suave e límpida, e parece ter saída dos anos 90. Traz outra marca registrada de Frank Black: frases mais faladas do que cantadas, em seguida com um pouco mais de musicalidade e um refrão melódico.

A quarta faixa, “Bagboy”, remete imediatamente ao clássico “Monkey Gone To Heaven”, do álbum ‘Doolittle‘. Já “Magdalena” faz lembrar “Avalina”, e essa lembrança é reforçada pela sonoridade do nome que serve de título, igualmente repetido no refrão. Os pixies sempre gostaram de títulos de música com nomes femininos (“Cecilia Ann” e “Velouria” são outros exemplos puxados da fase áurea). “Andro Queen”, a antepenúltima faixa, talvez seja a que se distancia um pouco mais da sonoridade clássica do Pixies e com direito até a uma estrofe em esperanto. A música, que originalmente abre EP-1 fala de um cara se apaixonando por uma visitante de Andrômeda, a galáxia mias próxima da Via Láctea. Black se inspirou na métrica de “The Great Pretender”, sucesso do The Platters. E a viagem no tempo continua firme em “Snakes” e “Jimmy Bravo”, com aquela característica linha de guitarra de Santiago e as viradas do baterista David Lovering, antecedidas de batidas marcadas.

Em suma, o que Frank Black & Cia trazem em 2014 não difere muito do que era apresentado há vinte anos. Não é falta de criatividade ou preguiça. É apenas o que eles sabem fazer, e bem. Se Kurt Cobain fosse vivo certamente elogiaria. O falecido líder do Nirvana foi roadie do Pixies e os tinha como modelo para o que seria o som de sua banda. Aquela alternância de momentos tranquilos e barulhentos (que também podem traduzir a personalidade de Kurt) foi inspirado no Pixies, e, claro, também pode ser ouvida aqui. Esses dez anos de estrada após a reunião serviram para retirar a ferrugem. O resultado é satisfatório.

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