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Calvin e Haroldo: 25 anos e muitas histórias

Todo adulto que já leu as tiras de Calvin e Haroldo já se perguntou por que não foi assim quando moleque. Alguns ainda se perguntam por que não são assim até hoje. Ainda assim, Calvin e Hobbes (o nome original do tigre Haroldo) é uma das tiras de quadrinhos mais respeitadas em todo o mundo, mesmo após 15 anos sem haver sequer uma publicação inédita por parte do autor Bill Watterson.

Calvin tem seu nome em homenagem à John Calvin (João Calvino), um teólogo francês que durante a reforma protestante ajudou a desenvolver o Calvinismo. Esta doutrina extremamente centralizadora em Deus pregava que todos estávamos predestinados a algo e que o homem já nascia com o mal em si. Thomas Hobbes foi um filófoso inglês que dizia, entre outras teorias, que o ser humano era conscientemente egoísta, vivendo em estado de cooperação social apenas pelo seu próprio interesse, teoria que até hoje pode ser vista como atual, uma visão obscura da natureza humana.

A explicação de onde vieram os nomes e do por que cada um deles ficou famoso ajuda a entender a relação entre o menino Calvin e seu adorado tigre de pelúcia Hobbes (Haroldo). Em diversos momentos, Calvin diz que não tem qualquer razão para estudar ou fazer suas tarefas de casa porque ele é um predestinado à grandeza. Haroldo é o melhor amigo que uma criança poderia querer, sendo um companheiro de aventuras e uma muralha para se rebater idéias e criar situações. Ainda assim, ele tem todos os comportamentos de um gato caseiro, sendo preguiçoso e amável em um momento e, em outro, sem muita razão, resolve que o melhor caminho é o caos.

A curta duração da carreira do pequeno Calvin e seu amado tigre de pelúcia não implicam na baixa qualidade de suas tiras e histórias que muitas vezes nos fazem parar e pensar no quanto o mundo seria diferente se tivéssemos aquele tipo de raciocínio quando crianças. Calvin porém, vai além deste conceito, infiltrando-se por temas adultos que variavam desde problemas sindicais ao marketing exagerado de produtos licenciados, expondo à critica do leitor o quanto outros se venderam sem se preocupar com a qualidade do que era comercializado.

Uma das razões que fez com que Watterson abandonasse a criação das tirinhas de Calvin foi que ele estava na crista da onda e temia que toda aquela imagem positiva adquirida com os anos fosse convertida em desdém e até ódio do público cativo de leitores que todos os dias abriam seus jornais para ler mais uma de suas tiras. Outro fator foi o excesso de pedidos de autorização para licenciamento de produtos com a imagem dos personagens. Watterson era totalmente contra o uso de Calvin fora das tiras dos jornais e dos livros de coletânea que ele autorizou à Universal Press Syndicate. Ao todo foram 3.160 tiras, publicadas em 2005 na forma de uma grande coletânea em capa dura e papel de alta qualidade ou em álbuns menores.

Talvez a melhor forma de entender o sucesso de Calvin e Haroldo até hoje é que as insinuações, os temas, as críticas e até mesmo as meras frases dos diálogos entre todos os personagens estão mais atuais do que nunca. O eterno conflito entre pais e filhos existe com mais e mais força, da mesma forma que os problemas sociais, que vão da revolta juvenil contra o ensino ao excesso de seriedade que se prega à vida adulta. Calvin é a revolta contra o sistema capitalista o qual Watterson era um crítico ferrenho, e ao mesmo tempo, um grande propagandista da reflexão filosófica por parte dos personagens. Entender o mundo era muito importante para Calvin e Haroldo e por diversas vezes, descendo as colinas do mundo, suas reflexões idealizavam as grandes questões da humanidade enquanto o fim se aproximava, ao mesmo tempo em que há a severa crítica aos ditos filósofos que simplesmente perdem seu chão enquanto voam até uma rua sem saída filosófica, que normalmente é demonstrada por alguma frase de Haroldo.

Há muito a se tratar quando se fala sobre Calvin, Haroldo e Bill Watterson, mas querer colocar tudo aqui seria um crime contra o fã e leitor que continua acompanhando fielmente as tirinhas, seja via jornais diários, seja via coletâneas, que valem e muito a pena serem compradas. Diariamente, leitores assíduos são presenteados com tirinhas de qualidade que ainda são orgulho de Watterson, que em seu retiro em algum lugar do mundo, deve sorrir ao abrir um jornal e ver ali seus personagens. 25 anos se foram, muitos mais virão, mantendo-se sempre a honestidade e fidelidade para com quem, como eu, adorou sonhar que um dia poderia ter sido como aquele moleque de seis anos de cabelos arrepiados com seu tigre de pelúcia e filosofia a se fazer qualquer adulto se arrepiar de medo.

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