Como a máscara de Guy Fawkes em V de Vingança criou o maior símbolo do ativismo político moderno

Ambrosia Etc. Como a máscara de Guy Fawkes em V de Vingança criou o maior símbolo do ativismo político moderno

A famosa máscara de Guy Fawkes, cuja imagem compõe a capa deste artigo, representa hoje um dos símbolos mais importantes do ativismo político moderno. Poucos sabem, entretanto, que este mesmo símbolo ostenta uma história sombria, conservando em sua composição estética ideais de cunho peremptoriamente anárquico. Embora tenha sido pensada para compor a personalidade de um personagem controverso, o V, a máscara sofreu uma transmutação de significado, e hoje representa ideais não tão semelhantes àqueles defendidos pelo anti-herói criado por Alan Moore e David Lloyd para a série em quadrinhos V de Vingança, publicada em sua versão final pela DC Comics, em 1989.

Capa de V de Vingança
Capa de V de Vingança

Guy Fawkes é um personagem histórico que integra o folclore inglês. Fora um soldado católico que, frente à perseguição religiosa da monarquia protestante da época, tenta explodir o prédio do Parlamento britânico a fim de por um fim ao reinado de James I. Fawkes foi preso em 5 de novembro de 1605, sendo enforcado alguns meses depois. O acontecido é então comemorado todo dia 5 de novembro, inicialmente para servir de aviso, a fim de defender a Inglaterra de novos traidores; hoje, não passa de uma tradição britânica, na qual um boneco de Guy Fawkes é queimado nas ruas inglesas em um evento popular semelhante à nossa “malhação de Judas”.

No começo dos anos 80, ainda na fase de composição da efígie do personagem V, David Lloyd sugeriu a Alan Moore que usasse a imagem de Fawkes para vestir seu protagonista. “Nós não deveríamos queimar o cara a cada 5 de novembro, mas celebrar a sua tentativa de explodir o Parlamento!”, teria dito o desenhista.

O enredo de V de Vingança é situado em uma realidade alternativa no final dos anos 90, em que, após a eclosão de uma guerra nuclear, um partido totalitário assume o poder da Inglaterra. O governo, aos moldes do fascismo italiano, passa a ter o controle sobre a mídia e a liberdade de expressão, manipulando a sociedade através de uma polícia secreta subjulgadora e exterminando minorias por intermédio de campos de concentração. O personagem rebelde V surge então como uma face anônima que pretende provocar uma rebelião e por um fim ao regime totalitário que assola a nação, realizando atos terroristas através de um discurso anarquista visando objetivamente esse fim. A narrativa de Moore se inspira bastante em obras influentes de ficção, como 1984, de George Orwell, e ensaios filosóficos como “Origens do Totalitarismo”, da filósofa alemã Hannah Arendt.

“O povo não deve temer seu Estado. O Estado deve temer seu povo.”

A história se popularizou através da adaptação para os cinemas em 2006, que trouxe modificações importantes aos conceitos políticos abordados na obra original. Inicialmente, há uma forte descaracterização do discurso anarquista de V, que no longa parece lutar mais por uma democracia que qualquer outra coisa, muito embora nenhum dos termos sejam mencionados hora alguma. Outra característica importante vem a ser a necessidade da ação das massas nas transformações, juntamente com os atentados que o personagem promove. Sendo assim, explodir um prédio como o Parlamento acaba sendo algo simbólico que perde o valor caso o povo não esteja na rua, protestando – isso te lembra algo?

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V, no filme de 2006

A obra detém uma dicotomia pulsante em seu discurso, uma vez que mantém em V a centralização e a personificação do movimento revolucionário, delegando uma individualidade inerente às transformações vindouras, para, em um segundo momento, renegar essa individualidade ao esconder a identidade do personagem atrás de uma máscara e um codinome. Esse fato inspirou a adoção da imagem de V pelo grupo hackerativista Anonymous, que por sua vez influenciou diversas manifestações ao redor do globo, como o Occupy Wall Street, a Primavera Árabe, a onda de manifestações em nosso país, entre vários outros protestos.

“Igualdade, justiça e liberdade são mais que palavras; são perspectivas!”

Certamente, a adoção da máscara de Guy Fawkes não sustenta a defesa de uma proposta anarquista, como a obra de Moore permite inferir; o símbolo está muito mais relacionado com a força popular na luta pela liberdade e à ideia de devolver o poder para o povo, em detrimento da sustentação de governos autoritários ou democracias cujo sistema político jaz perdido em meio aos tentáculos pujantes da corrupção. O símbolo estabelece, em última instância, a concepção física de um ideia imortal, que não possui dono, ou seja, não é presa a uma única mente que a detém. É um anseio intimamente popular, que, ao contrário do corpo, não pode ser morto, jamais.

“Por baixo desta máscara não há só carne… Por baixo desta máscara há uma ideia, Sr. Cryde. E ideias são à prova de bala!”

Manifestante em frente ao quartel general do Banco Central Europeu em Frankfurt
Manifestante em frente ao quartel general do Banco Central Europeu em Frankfurt

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