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Fortuna Crítica: My New New York Diary

Será que existe um complô misógino nas editoras brasileiras de quadrinhos?

Eu acredito que sim, que senhores tramam ás escondidas  nos corredores, para que o leitor brasileiro jamais tenha acesso á obra de mulheres cartunistas como Mary Fleener, Lynda Barry, Jessica Abel ou Julie Doucet. Só isso explicaria a ausência delas nas prateleiras de quadrinhos.

Pior que não é o caso de “senhores”, velhos taciturnos, em ternos escuros, não, devem ser uns caras com casacos Adidas ou da seleção de Camarões (“vintage”, claro…), que por algum motivo obscuro não lançam aqui a obra dessas autoras. Já machos sem talento, são lançados em profusão. Vá entender…

A exceção é a Conrad, que lançou Alison Bedchel (“Fun home”) , Hélene Bruller (“Eu quero o príncipe encantado”) e colocou a insana Dame Darcy na coletânea lançada no final do anos 1990, “Comic Book”.

Se EU tivesse uma editora, o primeiro autor(a) a ser lançado seria a canadense Julie Doucet. Depois de toda a obra de L. F. Schiavon, claro. O bravo Schiava seria a prioridade, seguido por Julie.

O problema é que já estou atarefado demais tirando leite de pedra com minha minúscula produtora Toscographics, eternamente á beira da falência e sempre me deixando á beira de um ataque de nervos. Portanto será difícil num futuro próximo colocar a TOSCOGRAFICA no mercado.

Pois é, O Mundo Perfeito, sempre inatingível.

Julie Doucet lançou em 1999 seu “My New New York Diary”, um clássico onde conta sua experiência de morar 6 meses em Nova York depois de sair de sua cidade natal, Montreal, no Canadá. Epilepsia, bebedeiras, um namorado idiota, inseguranças: ela não poupa o leitor e muito menos SE poupa. Julie SE JOGA.

Em 2008 o diretor Michel Gondry, uma espécie de John Ford francês dos Filmes Maneiristas ( “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, “Sonhando acordado“ e “Rebobine por favor”) propôs que ela voltasse a Nova York para um projeto: fazerem um curta juntos, onde ele inseriria ela nos seus próprios quadrinhos, substituindo a Julie desenhada pela Julie filmada. Tudo passado em… Nova York.

Enfim, uma idéia imbecil que resultou num livro menor de Julie e num curta vagabundérrimo de Monsieur Gondry.

No curta estão as marcas do francês: a obsessão pelo low-fi (uma expressão jeca para “feito-como-deu-pra-fazer”), um deslumbramento com as maquinas que envolvem a produção da imagem em movimento, enfim, uma punheta dentro de uma punheta. Se você, caro leitor, já topou com um desses diretores de publicidade que ADORAM Super-8 (mas isso nem como “conceito”, o negócio é o VINTAGE), você tem idéia da coisa.

Mas vale pelo uso de Julie de recursos também low-fi, mas no caso dela na área do desenho. Retículas adesivas em profusão (eventualmente coladas uma em cima da outra), desenho menos poluído,economia de traços, etc.

O livro vem com o DVD do curta.

Grandes merdas.

Se você quer um diário de verdade, vá atrás disso: “365 days: a diary by Julie Doucet” (Drawn & Quarterly – 2008). É chato e lindo como um diário de verdade. E são 365 páginas MESMO.

Julie é grande.

[xrr rating=3/5]

 

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  1. esqueceu que a Conrad tbm publicou, Posy Simmonds (Gemma Bovary), Jill Thompson (Morte – A Festa), Giovanna Casotto, e a Kate Worley (Omaha).

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