Preparava-me para conhecer um personagem de quadrinhos. Pois é, havia conhecido o quadrinista e editor Jean-Christophe Menu pelas páginas do Oupus 4 da L’Association, livrinho de 15×15 cm em que a cada página havia dois quadrinhos de autores diferentes, embaralhados, numa proposta do chamado Oubapo.

J-C Menu é o autor de quadrinhos (“bédéaste”, como se diz por lá, agora), mais conhecido por ser editor fundador da L’Association, de quadrinhos “alternativos”. Aprendeu a desenhar sozinho e é um verdadeiro militante da nona arte. Na década de 1980 fundou a Associação de Apologia pela nona Arte Livre, ou ANAAL (sim, em francês também há duplo sentido). Lá, já alternava o traço em preto branco com textos de denúncia aos academicismos e a certo enclausuramento do quadrinho em guetos editoriais. Conhecido pelo seu personagem Meder, ganhou fama ao ser publicado pela Futuropolis, célebre casa do chamado “quadrinho de autor”. Mais tarde, a Anaal se transformou na L’Association, a “independente” com maior número de publicações. Era realmente uma associação de autores em prol da publicação da arte quadrinística; ao lado de Menu, na fundação, estavam Matt Konture, Patrice Killoffer, Lewis Trondheim e David B.. Outros autores que entraram para o grupo mais tarde foram Blutch e a iraniana Marjane Satrapi, cujo Cannes de melhor animação por seu best-seller Persépolis atraiu outros olhares para esse meio (além de participar ativamente de debates sobre o Irã). L’Association completa vinte aninhos em 2010, publicando muito mais autores, com um catálogo repleto de obras de arte e até jogos a partir de quadrinhos, como dominós, palavras-cruzadas…

J-C Menu, um guerrilheiro

Logo na primeira página do Oupus 4 vemos Menu: autorretratado, irritado, vestindo a camisa listrada que se repete em outros quadros, dele ou de outros. Seja tomando a quinta cerveja no bar, bebendo para perder medo de avião, discursando bêbado sobre quadrinistas/heróis ou falando que tem certeza de que o desenharão bêbado. E tinha razão.

Depois de tê-lo visto desenhado, li como a mídia de quadrinhos o pintava: insultava a torto e a direito quem quer que fosse e se isolava como único editor da casa que era associativa desde o nome. Em 2004, Menu travou uma briga com jornalistas de quadrinhos. Da briga, tirou o livro plates-bandes (algo como “tiras medíocres”), de 2005, ensaio ácido contra a imprensa de quadrinhos e todo o mainstrean.

Na França, desde os anos 1950, há um padrão nessa área; os álbuns de quadrinhos são grandes, de capa dura, coloridos, 48 páginas em geral. Os 48CC. Os quadrinhos dos jornais, em preto e branco, são a tira barata e apressada em contraponto com os luxuosos “álbuns”. A cor é signo de nobreza.

Nos anos 1990, os editores especializados em quadrinhos adotaram o modelo do 48CC para todas as obras, assim como o modelo de conteúdo. Histórias com heróis, seriadas, dos mesmos gêneros de sempre: “medievo, policiais, velho-oeste, ficção científica etc.”. Segundo J-C Menu, a norma absoluta que se impõe aos quadrinhos apresentados nos mais recentes festivais é o “48CC/HF/KK”, sendo HF o gênero que predomina nas novas produções (fantasia de herói) e KK (caca) significa o que ele pensa da qualidade dessas obras e desses clichês.

Assim, quando esses artistas se associam para publicarem, estabelecem escolhas editoriais para fugirem do padrão, em busca de uma criação constante, reinventando mesmo o livro como objeto. E preferem a escolha do preto e branco por uma valorização do traço e contradizer a idéia de “cor = nobreza”. Uma incessante recherche pela inovação e contestação dos poderes (leia-se padrões editoriais) vigentes. Passam a trilhar o caminho do inusitado. Eles se associam, também, aos ideais e estratégias surrealistas. Criações coletivas, a introdução sistemática do sonho, são alguns dos ensaios de produção desses artistas e, mais recentemente, a autoficção.

No plate-bandes, Menu responde raivosamente a jornalistas que criticaram a sua atitude – acompanhada de linguagem extremamente agressiva, ele mesmo concorda – de recusar a publicação de qualquer matéria sobre os artistas da L’Asso. A mídia especializada em quadrinhos, segundo ele, relegou essa arte a um gueto de especialistas, com trejeitos de revistas de fofocas. Em seu livro, ele comenta como sua editora consegue ser um dos grupos editoriais que mais vende sem precisar “se vender”.

Além de erguer uma editora própria, esses autores criaram o grupo Ouvroir de la Bande Dessinée Potentielle (OuBaPo – Oficina de Quadrinhos Potenciais). Eles se posicionavam como herdeiros do surrealismo, mas tomando como referência o Oulipo, Ouvroir de Littérature Potencielle (criado por François le Lyonnais e Raymond Queneau e cujo maior exemplo foi o romance sem a letra e do revolucionário Georges Perec).

Em sua primeira publicação, reunindo as experiências de vários de seus artistas, a OuPus1 (trocadilho com a palavra ouvroir + opus) apresenta textos teóricos, também, sobre OuLiPo e OuBaPo. Menu avança, em seu ensaio “Ouvre-Boîte-Po” (abre-latas-po: abridor de latas potencial), que em meio a tantas artes potenciais, as histórias em quadrinhos, celebrando na época seu centenário, não deixavam de ser, ainda, uma arte em potencial. O Oupus1 não deixa de ser um livro-manifesto a favor da nona arte.

[to be continued]

* Correção: a palavra “bédéaste”, como o Menu me explicou depois, só é utilizada peles “muito, muito estúpidos, e certamente esses não somos nós”. Foi mal aí.