AcervoCríticasQuadrinhos

Klaus – Um conto de Grant Morrison

Em um passado fantástico e sombrio, cheio de mitos e magia, Klaus conta a origem do Papai Noel – a história de um homem e seu lobo contra um estado totalitário e o mal ancestral que o sustenta.

O renomado escocês Grant Morrison, escreve uma HQ que reinventa a figura do Papai Noel como um herói de ação, violento e austero, uma ideia que tinha tudo para dar errado. A graphic novel Klaus, publicada pela Devir, escrita por Morrison e ilustrada por Dan Mora, foi publicada originalmente pela Boom! Studios, em uma série de sete edições (2015-2016) que mistura heroísmo com guerreiros e mitologia viking/siberiana, mostrando uma visão única de Morrison sobre o Papai Noel.

Seguindo uma tendência que se popularizou nos últimos anos, Klaus, segue a linha de criar obras baseadas na ideia de dar um caráter quase super heroico a personagens históricos (reais ou fictícios), como foi com Abraham Lincoln: caçador de vampiros, Branca de Neve e o Caçador, Os Irmãos Grimm, entre outros. Morrison usando essa tendência oferece uma versão alternativa da criação do mito do Papai Noel.

A figura lendária do cristianismo ocidental é bastante conhecida, um senhor corpulento e de longa barba branca que se esgueira pelas chaminés e traz presentes para as crianças que se comportaram bem durante o ano, que na noite de 24 de dezembro, viaja o planeta com seu trenó voador puxado por renas. O conceito, um amalgama de vários mitos de culturas diferentes, faz com que o escritor escocês fosse além deste conceito, para contar a sua origem.

Klaus, o ‘Papai Noel”

A narrativa nos leva a um período da Idade Média, num cenário que lembra o norte da Europa. O protagonista é um caçador/comerciante que retorna a uma cidade depois de uma longa ausência, acaba encontrando um lugar bem diferente, onde os cidadãos são pouco mais que escravos que trabalham o dia todo nas minas, além disso, os guardas da cidade estão roubando brinquedos de crianças.

Podendo soar como uma HQ paródica ou como um Batman Year One do Papai Noel, como afirma o autor. Assim, o objetivo do personagem é acabar com a tirania que aflige a cidade, em especial na data do Yule, celebração pagã do solstício de inverno, predecessora do Natal tal e qual conhecemos atualmente. Num conflito aberto, que segue a linha de Robin Hood, veremos como gradualmente o personagem vai tomando forma e adquirindo detalhes que fazem dele o Papai Noel que conhecemos. E mediante um poder sobrenatural, Klaus adquire poderes especiais que o ajudarão em sua luta, além de construir brinquedos mágicos para distribuí-los entre as crianças oprimidas.

Bem, se você é ou não um fã do roteirista escocês, é notório que Morrison sabe contar uma história, com recursos narrativos diversos que são geralmente reconhecidos em seus trabalhos. Mas em Klaus, não encontramos esse Morrison. Não fosse o seu nome na capa e algum detalhe muito especifico na narrativa, não reconheceríamos o autor de maneira alguma. Uma tentativa de seguir Mark Millar, com um enredo coerente, mas que não se materializa completamente, não se arrisca em fazer nada transgressivo. Mas apesar de tudo, Klaus é uma narrativa gráfica atraente, possui um ritmo narrativo ágil, e o estilo de Dan Mora ajuda.

O costarriquenho, é uma nova promessa, tem um desenho muito colorido e espetacular. Seu estilo combina muito bem com a história, com um toque muito típico de animação e uma cor que evoca uma história infantil parecida com a Disney. As características dos personagens são simplistas, os bons têm rostos nobres, os maus têm rostos torcidos e uma expressão corporal que convida à desconfiança. Mas também apresenta cenas bem  dinâmicas, que lembram em certos momentos as Hqs europeias. É um trabalho que convida a folhear suas páginas e se fosse no formato europeu 21x29cm seria espetacular.

Klaus, como um What If, consegue compor um excelente “reconto” da história do Papai Noel, é agradável por causa da curiosidade que resulta da leitura. Apesar do pouco desenvolvimento dos personagens, tão comum em outros trabalhos de Grant Morrison, é uma HQ a la Robin Hood, vale a leitura.

Deixe um comentário

Sugeridos
CríticasTeatro

Excelente montagem de A Gaivota, de Tchekhóv

O Armazém Companhia de Teatro está de volta com uma nova montagem...

CríticasMúsicaShows

Após longo hiato, Flávio Venturini festeja 50 anos de carreira no Rio com show inspirado

Assistir a um show do cantor, compositor e tecladista Flávio Venturini sempre...

CríticasSéries

Segunda temporada de “Treta” fica aquém do brilhantismo da primeira

Você sabe o que é uma série de antologia? É aquela série...

CríticasFilmesLançamentos

Champagne (2026): uma inesquecível viagem de pai e filho

Ali pela metade do filme holandês “Champagne”, Hans está conversando com um...

CríticasFilmes

O Fim da Rua e o ensaio sobre a finitude

O Fim da Rua, produção assinada por J.J. Abrams e sua produtora...

CríticasFilmes

“Homem-Aranha: Um Novo Dia” e a árdua tarefa de recomeço

Novo longa abraça a essência clássica do herói, longe das muletas do...

CríticasFilmes

‘A Odisseia’ é o mais novo espetáculo de Christopher Nolan

Com um Matt Damon impecável e um visual que resgata a densidade...

CríticasTeatro

Incondicionais, do Amok Teatro: histórias de mulheres do sistema carcerário contadas à equipe de cuidado

No espetáculo Incondicionais, do Amok Teatro, com direção e dramaturgia de Ana...

CríticasSéries

Pela Metade: explorando as masculinidades tóxicas

Relacionamentos tóxicos não existem apenas entre homem e mulher. Podem acontecer com...

CríticasFilmes

Supergirl é um spin-off nada original

Supergirl Joga Seguro Demais e Esquece a Essência dos Quadrinhos Quando Kara...

CríticasFilmesLançamentos

Cinco da Tarde: falando sobre os dias cinzentos do luto

Ela que já foi regra volta como escolha ousada: a fotografia em...