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Olhares & Observações: O Espírito do Parlamento

Capa de Mago: o Despertar

Sei que não atualizo minha coluna desde o dia trinta e um de dezembro do ano passado, mas sempre achei que este é um espaço onde só devo escrever quando realmente tiver algo de importante a dizer, por isso, não quis banaliza-la pela regularidade. Graças a uma situação que vem se repetindo constantemente em uma mesa minha, acredito que o tema, ainda que não universal, se tornou bastante relevante para mim, e se faz necessário discuti-lo.

Primeiramente, acredito que seja importante explicitar o funcionamento e tema da mesa que me faz escrever novamente esta coluna. Em 2007, iniciei minha segunda crônica de Mago: O Despertar, a idéia inicial era criar uma cidade bastante completa e com diversos ganchos que tornasse possível a participação de múltiplos grupos diferentes em uma mesma ambientação. A mesa começou com dez jogadores, cada um com um personagem bastante único, tendo por link comum apenas o fato de terem despertado e entrado para o Concílio (a “organização” geral de despertos) de Carmartherm (que é um dos mais tradicionais da Europa, e maiores também, envolvendo toda a região centro-sul do País de Gales). Depois dos primeiros meses, um grupo bem mais entusiasmado (e com mais tempo) ganhava cada vez mais evidência e participava de mais mesas, fazendo com que os demais, muitas vezes impedidos por problemas pessoais de manter uma participação mais ampla, acabarem por deixar a mesa (com algumas participações especiais com seus velhos personagens até hoje). Os cinco formaram uma Cabala e já se vão doze anos (a mesa se iniciou em 1969 e estamos atualmente no meio de 1981) desde que começaram sua vivência conjunta.

Pronto. Acredito que isto é tudo o que precisa ser contado sobre o histórico mesa. O problema que nos aflige: “o espírito do parlamento”. Convenhamos, Mago, meu título preferido da White Wolf (apesar de manter uma admiração irmã por Promethean), não é o mais simples dos RPGs. Nossa mesa enfoca muito mais o lado intelectual/investigativo dos personagens do que qualquer outra coisa, mas como conseqüência, boa parte do tempo da mesa é gasto em discussões (em ON pelo menos), sejam elas, éticas, teóricas e até mesmo birras.

O grupo pousa "péssimamente" para uma foto
O grupo pousa “péssimamente” para uma foto

O Espírito do Parlamento é uma piada praticamente em ONFF que envolve nosso grupo. No World of Darkness, existe um local chamado Shadow Realm (Reino das sombras), que corresponde em grande parte a um espelho da terra habitado por espíritos inspirados em conceito xamânicos/animistas, isto é, pela alma consciente de diversas coisas como: pedras, árvores, animais, emoções, objetos, etc… Praticamente tudo tem seu reflexo espiritual vivo neste outro lado. Pelo fato do grupo sempre viver em um processo argumentativo, nós sempre afirmamos que a cabala é contrabalançada por um imenso espírito do parlamento no Shadow Realm. Ainda que o termo tenha sido inventado como uma piada, ele representa uma verdade relativamente chata que atormenta a todos nós.

Como superar tal espírito? Isto é um dever de quem? Do narrador? Dos jogadores? De ambos?

Toda discussão é acompanhada por comida...
Toda discussão é acompanhada por comida…

Ainda que debates filosóficos e éticos sejam excelentes e essenciais a mesa, é um pouco cansativo passar uma sessão inteira cujo 80% do tempo é gasto em uma mesma cena com uma discussão entre os jogadores. Não gosto particularmente do método de corte, abrupto, que é inserir um elemento novo na narrativa, como por exemplo, alguém bater na porta, ou o telefone tocar com um plot na linha. Já usei muitas vezes esse recurso, mas não é o que me torna feliz. No caso dessa mesa, o principal objetivo da mesma, não é de fato uma narrativa linear e sim os personagens. O que importa é que eles cresçam e amadureçam como indivíduos e como magos, e que façam escolhas e reflitam sobre as mesmas. É claro que existem linhas narrativas, e obstáculos em vários campos. Na mesa, temos antagonistas que estão lá para representar os medos e até mesmo agirem de forma efetivamente ruim (ainda que um destes seja um personagem querido pelos PCs, sendo inclusive “irmã” de um deles, dando um tom de ambigüidade a questão), temos antagonistas que representam um outro ponto de vista ético não necessariamente mau (os banishers como um todo, e em menor instância os seers of the throne), temos antagonistas políticos (dentro das próprias ordens, e o seers também servem a isso um pouco). Todos estes, possuem uma longa linha de narrativas e histórias com os personagens, que apesar de serem relativamente lineares, são abertas o suficiente para que os jogadores possam fazer verdadeiras escolhas em relação a estes grupos. Como disse, o foco é o desenvolvimento dos personagens, e de certa forma, a mesa tem se tornado um pouco como uma tragédia grega, pois alguns tem decaído moralmente devido as escolhas tomadas, ou mesmo, para proteger uns aos outros.

O fato é, quando confrontados com quase qualquer situação, o grupo se fecha e começa a discutir, e por serem constituídos de personagens tão diferentes, com paradigmas éticos e filosóficos não necessariamente semelhantes, eles acabam por perder muito tempo com isso.

Tentando tornar a coisa mais geral, isso é comum para mais jogos de RPG? Grupos de Vampiros que discutem cada etapa de suas ações políticas antes de as executarem e fulminarem o status de dado outro membro? Aventureiros que não concordam sobre a melhor escolha quanto ao que fazer com uma caravana de escravos?

Imagine um grupo, como uma cabala de magos, que é muito unido, onde todos os membros são como irmãos, e colocam este grupo a frente das demais obrigações. Vamos dizer que mesmo entre pares, existem largas discordâncias éticas, como agir sem ferir o sentimento ou faltar ao respeito ao seu irmão?

Minha atual idéia é que uma boa e bem resolvida discussão em OFF, pode ser ideal para resolver esse problema. Se os jogadores conversarem efetivamente sobre como seus personagens se sentem, como eles reagem a certas questões, como eles convivem… em suma, conversar sobre tudo que pessoas que vivem juntas diariamente saberiam uma das outras, esta questão poderia ser melhorada.

O amor por Mage é tamanho que contamos com todos os livros
O amor por Mage é tamanho que contamos com todos os livros

Se houver clareza na exposição de argumentos, se existir a capacidade de ouvir e refletir o que todos os outros disserem, e mais importante, se o jogador for capaz de aceitar que a visão de seu personagem não seja a única correta, mesmo que seja simplesmente pelo bem do grupo, tudo isso já pode ajudar a resolver. Um segundo caminho é criar uma hierarquização funcional no que concerne o debate. Alguém realmente manter o papel de árbitro e juiz, ou deter a palavra final de um líder. O posicionamento deste personagem poderá ser aceito na base de que existe um grande respeito pelo mesmo no que concerne aquela questão. E por que não ter até mesmo vários líderes? Cada um para uma área de especialização? Em uma aventura clássica de D&D, o clérigo ou o paladino poderiam atuar como líderes ou árbitros em disputas no que concerne a ética, já o guerreiro seria ideal na hora de decidir qual é a melhor tática de ataque a ser empregada pelo grupo. No caso de Mago, onde todos são de certa forma, intelectuais na busca por conhecimento, poderia haver uma fratura no que este grupo entende por conhecimento, sendo cada um o responsável por uma área ou campo teórico-filosófico.

Acredito que se os jogadores realmente sentarem e se entenderem em OFF, isso irá ajuda-los a interpretar e entender melhor os personagens em ON e a dinâmica de grupo no qual estão situados.

Neste exato momento, estou discutindo estas idéias com meus jogadores na lista de discussão de nossa crônica (é uma ferramenta muito útil, para marcar mesas e debater personagens, assim como administrar arquivos), mas ficaria muito feliz em ouvir sugestões de vocês e trocar experiências. Espero sinceramente que este não seja um artigo inútil para todos, ilustrando um problema que é bastante único a essa mesa, mas raramente vi essa questão aparecer em outros lugares.

Tenham sempre um bom jogo.

10 opinaram!

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    • É.. era para ser uma Coca, como de costume…

      ps. aquela comida toda nem é o normal da mesa, esse foi um dia comemorativo de 1 ano de mesa, com comidas e bebidas. Normalmente rola só salgadinho.

  1. Calma Felipe eu não tinha falado ainda!
    Não tive experiencias uanto a isso, algumas mas se resolviam rapido.
    A questão pode ser resolvida em On ou em OFF. Em On algum persoangem teria que estar incomodado com as dsicuções interminaveis, e expor seu lado o que REALMENTE pensa assim todos fariam, até que os PJ iriam sozinhos saber o que o outro acha e quer, e só levar a discutir algo realmente serio, importente ou questionavel.

    A idia do lider pode ser boa, é pratica de verdade, mas a questão é ficar só com uma opinião que os outros podem não concordar, ou pior não aceitar e irem contra.

    Em OFF teria que ser feito como você disse que com JOGADORES adultos, co contrario só iria piorar tudo. Despois de tudo discutido todos tentariam ajudar o personagem dos outros se desenvolverem também, ou pelo menos já saber as reações deles e pensar en contra reações para agilizar a discução.

    Eu resolveria conversando em ON e em OFF, primeiro em OFF depois em ON. POr que do contraio a discução somente em OFF poderia chegar de forma artifial e forçada dentro do jogo.

    Acho que é isso.

  2. Agora que consegui comnetar uma obs, no meu navegador o primeiro cmapo que seria do nome está em branco, o segundo do e-mail está escreito nome e o terciero do endereço esta pedindo o e-mail….

    Acho que era por isso que ficava dando erro quando ia comentar… o prolbema é ai ou aqui?

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